Portugal vai ser a “casa” do primeiro parque temático de futebol do mundo, um empreendimento que vai custar 450 milhões de euros e que deverá ser implementado em Santarém.
Já com data de abertura de portas e com um countdown” no site oficial, o projeto está ainda pendente de licença de construção. Em causa estão os terrenos, cedidos pela Paróquia de Marvila, classificados como rústicos e que, legalmente, impedem qualquer tipo de construção desta natureza.
O VivaMundo é um empreendimento levado a cabo por um grupo privado de investidores portugueses e ingleses e deverá abrir ao público em 2030, mesmo a tempo do próximo Mundial, que terá partidas a decorrer precisamente, em Portugal.
“Tudo estará preparado e pronto a tempo de abrir em 29 de abril de 2030”, declara, convicto.

Jorge Ferraz, do grupo JFA Engenharia, é um dos dois únicos investidores conhecidos e partilhou, em entrevista a um meio estrangeiro, uma visão diferente da do futuro gestor.
Contactado pela Renascença, recusou o pedido de entrevista, assegurando que “não haveria muito a acrescentar” às declarações prestadas pelo gestor do projeto, Carlos Carreiras. Contudo, numa entrevista à Global Construction Review, uma revista da indústria, admitiu que alguns dos principais desafios do processo são a sustentabilidade e o licenciamento.
“Os principais desafios incluem a coordenação multidisciplinar, o licenciamento, a integração das infraestruturas, a execução por fases, a aquisição de atrações e tecnologias especializadas, o controlo do programa, a sustentabilidade, a gestão de custos e a garantia de que o projeto final se mantenha coerente, tanto como destino turístico como património urbano a longo prazo”, diz José Ferraz à GCR.
Na mesma entrevista, José Ferraz caracterizou em termos económicos e urbanos o funcionamento do VivaMundo não apenas como “uma atração isolada”, mas como “catalisador”.

A construção deste parque temático deve gerar entre 800 a 1000 postos de trabalho, acredita o gestor, que espera ter cerca de 1,5 milhões de visitantes por ano — e um milhão no primeiro ano (segundo o vídeo de apresentação publicado no Youtube).
Prevê-se que o espaço, de 80 hectares, vai albergar 28 atrações, seis áreas temáticas, retail e restauração e, pelo menos, um palco. Também terá, de acordo com o vídeo de apresentação do projeto, um hotel com 300 quartos.
“Os visitantes deparar-se-ão, em primeiro lugar, com o Portão de Boas-Vindas (…) Segue-se uma área dedicada ao património e ao comércio, que celebra a história do futebol e inclui um museu, o «Passeio da Fama» das mulheres, um teatro e lojas e estabelecimentos de restauração”, afirma José Ferraz na entrevista à GCR.
Sobre o “coração do projeto”, como é descrito no site oficial do parque, o investidor português conta: “O ‘Football World’ será a maior área do parque, com um lago, uma torre do Campeonato do Mundo com miradouro, restaurante giratório e espaço de exposições, várias montanhas-russas, um carrossel, atrações aquáticas, uma torre de queda livre e karting.”
O parque temático será ainda dedicado aos 11 melhores jogadores “de todos os tempos”, definidos segundo uma votação do público, que ainda não tem data mas já aparece indicada no site.
O VivaMundo vai contar com 12 galerias — uma para cada um dos jogadores eleitos, com curadoria do país de origem dos mesmos —, e uma galeria geral.
O gestor do projeto, Carlos Carreiras, afirma que a organização ainda “não sabe nada” sobre este assunto em concreto, mas “arrisca” dizer que a eleição dos jogadores será realizada “suficientemente tarde, mas a tempo de poder ser colocada a imagem dentro do próprio parque temático”.
Santarém espera mais emprego e “crescimento populacional”
Em declarações à Renascença, o presidente da Câmara de Santarém, João Teixeira Leite, afirma que a infraestrutura vai gerar emprego, desenvolvimento e crescimento, culminando num “aumento substancial de visitação”. Contudo, admite que “a consequência de gerar emprego” é “gerar também um crescimento populacional” no concelho.
“Isso vai significar mais habitação, necessidade de termos mais escolas, mais centros de saúde, mais acessibilidade”, afirma João Teixeira Leite.
O autarca aponta um estudo que a CM de Santarém está a preparar no sentido de apurar o impacto desta infraestrutura no concelho, para, dessa forma, perceber as respostas que terá de dar, nos próximos anos, “do ponto de vista da política pública”.
João Teixeira Leite não deixa de referir por isso que, “do ponto de vista da acessibilidade, estão aqui garantidas um conjunto de infraestruturas que são importantes para o projeto”, referindo-se às autoestradas e à “principal linha férrea do país” que serve Santarém.
Em relação à questão da habitação, o autarca destaca que esta será, necessariamente, uma questão a ter resposta: “A habitação, por exemplo, vai ter de ser uma das respostas, mas aí o privado também vai dar o seu contributo.”
“Vamos conseguir responder com aquilo que já está aprovado do ponto de vista do urbanismo: umas centenas de fogos a construir já nos próximos anos.”
Construção em terrenos da paróquia de Marvila
“Encontrar um espaço para que pudesse ser realizado foi a primeira grande tarefa e esse espaço foi encontrado em Santarém”, afirma o gestor do projeto.
O espaço encontrado é propriedade da paróquia de Marvila, que fez “uma cedência do chamado direito de superfície por um tempo de 150 anos”, explica o padre Aníbal Manuel Vieira, da Diocese de Santarém, à Renascença.

Foram disponibilizados 80 hectares para a construção do parque, com um arrendamento 15 vezes superior face aos anteriores arrendatários, que deve totalizar, assim, os 120 mil euros por ano, anunciou o presidente da autarquia de Santarém, na reunião ordinária do executivo municipal de 12 de junho.

“Excelente oportunidade” encontrada em Santarém
O que motivou o primeiro passo, afirma o futuro gestor do VivaMundo, foi “por um lado, em 2030, que é quando o parque estará a funcionar, Portugal ser o co-organizador do Campeonato do Mundo”, e por outro lado, ser também celebrado o “centenário da realização, por parte da FIFA, do primeiro campeonato do mundo”.

Nesta sessã,o discursaram Carlos Carreiras, Munir Samji, o executivo de negócios, o presidente da Câmara de Santarém, João Teixeira Leite, e a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, tendo os dois investidores conhecidos, Jorge Ferraz e Zul Virani, marcado presença na plateia.
Carlos Carreiras conta que “houve um conjunto de empresários, quer ingleses quer portugueses, que consideraram que era uma excelente oportunidade para lançar este primeiro parque, já que não há nenhum outro igual sobre o tema do desporto rei em todo o mundo”.
Um dos nomes dos investidores envolvidos já mencionado é o português José Ferraz que, a par de Zul Virani, o investidor britânico, deu início ao projeto, cujo investimento previsto é de 450 milhões de euros. No entanto, o VivaMundo é um empreendimento que envolve mais patrocinadores. Quando questionado pela Renascença sobre o número total de pessoas envolvidas, Carreiras não responde, assegurando que já foram dadas todas as “garantias”.
“Aqui a questão não é a quantidade, não é o número de empresários. Aqui a questão é, de facto, dar todas as garantias e isso já foi também apresentado, nomeadamente na Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), onde estamos com uma candidatura para projeto de interesse nacional (PIN), e também junto da banca portuguesa e inglesa”, declara o ex-autarca de Cascais.
A Renascença tentou contactar a AICEP várias vezes, contudo não conseguiu obter resposta. Também contactada pela Renascença, a ministra Margarida Balseiro Lopes optou por não prestar declarações sobre o projeto, uma vez que a sua presença na apresentação “teve um caráter institucional, não cabendo ao Ministério da Cultura, Juventude e Desporto qualquer responsabilidade pelo financiamento ou licenciamento do empreendimento.”
E se não for aprovado?
O investidor português, José Ferraz, afirmou na já referida entrevista à GCR que “o atual programa prevê a conclusão do projeto até janeiro de 2027”, data que afirma ser “esperada” para emissão das licenças de construção. Contudo, e apesar dos acordos fechados entre os investidores privados do projeto, a paróquia de Marvila e a Câmara Municipal de Santarém, continua a existir a possibilidade de estes terrenos não serem aptos para a construção desta infraestrutura.
Caso a obra não prossiga, o que acontecerá ao contrato de aluguer já celebrado? O padre Aníbal Manuel Vieira assegura que “as cláusulas do contrato têm as suas normas e as suas regras para se poder ultrapassar as questões que existirem”, mas afirma que “essa parte não depende” da paróquia.
O presidente da CM de Santarém afirma que o concelho está “neste momento a trabalhar para que do ponto de vista legal o terreno tenha todo o enquadramento para receber uma infraestrutura tão importante quanto esta” e não coloca um cenário em que a requalificação do solo não é aprovada.
“Não coloco esse cenário. É um cenário que não faz sentido, tendo em conta aquilo que está a ser mobilizado por parte da CM, da CCDR e destes organismos”, declara o autarca que também refere: “havendo um enquadramento legal, havendo vontade do país, da CM e da CCDR de agarrar um projeto tão importante quanto este, não creio que essa seja uma questão agora a ser levantada.”
A escolha de Santarém teve em conta a centralidade da região e a proximidade das cidades de Lisboa e do Porto, “nomeadamente neste eixo Lisboa-Porto, e muito especialmente também ao eixo que o leva até a Espanha”, explica Carlos Carreiras. O ex-autarca de Cascais sublinha ainda a importância da existência das redes rodoviária e ferroviária e das “aeroportuárias que tem em Lisboa, no Porto e que tem, por exemplo, em Badajoz”.
O padre Aníbal Manuel Vieira partilha da mesma ideia. “Santarém tem infraestruturas de comunicação que são adequadas a este projeto. Além disso, Santarém está próximo de Lisboa e de vários coletivos. Este projeto ajudará a desenvolver Santarém”, acredita.
Fonte: www.rr.pt
Crédito da imagem: VivaMundo