Reino Unido: Keir Starmer, da maioria absoluta à demissão em menos de 2 anos

Há apenas três dias, Keir Starmer continuava confiante e garantia que não se ia afastar do cargo. Três dias depois — e menos de dois anos depois de conquistar uma maioria histórica para os Trabalhistas —, Starmer apresentou a demissão. tornou-se no sexto primeiro-ministro a fazê-lo em 10 anos.

Quando foi eleito, em Julho de 2024, Starmer queria ser o “adulto na sala”, depois do caos instalado em Westminster sob a liderança dos conservadores. Em vez disso, Starmer não conseguiu dominar esses fantasmas da política britânica, passou os últimos seis meses de governação a lutar pela sobrevivência e sai pelo próprio pé, mas empurrado pelo próprio partido.

Ainda assim, Starmer destacou o papel que teve ao inverter 14 anos de governação conservadora, defendendo que reverteu a política de austeridade e que recuperou a confiança na economia.

No entanto, a questão agora não era se Starmer era a pessoa certa para governar, mas sim se é “a pessoa certa para guiar o partido nas próximas eleições”. Com o partido em dificuldades nas sondagens e a dois anos das eleições, os trabalhistas responderam que não.

Starmer, visivelmente emocionado, disse que os ouviu e agradeceu ao staff de Downing Street, a sua residência oficial.

Starmer prometia tornar os Trabalhistas num partido de “poder, não de protesto”. Foi em parte essa seriedade que trazia pelo seu passado enquanto procurador-geral que o levou a primeiro-ministro, sem nunca ter sido particularmente popular no seu partido.

A forma como endureceu as políticas de imigração, de forma contrária ao histórico do seu partido, mostrava esse compromisso. A estratégia resultou, os números de imigração baixaram durante o seu mandato.

Tentou encontrar um equilíbrio com políticas de esquerda, atacando o mercado da habitação com um pacote de medidas que vai devolver mais poder aos compradores.

Deixou cair medidas verdes, ao mesmo tempo que investia 4,5 mil milhões de euros num programa para promover a circulação a pé e de bicicleta.

Tentou atravessar a corda política onde cabem todos os eleitores e mesmo assim foi chumbado estrondosamente nas eleições locais em maio, colocando o partido da direita radical Reform, de Nigel Farage, como líder nas eleições de voto para as próximas legislativas.

Os eleitores não castigaram apenas o rumo de um governo que teve de lidar com a fatura da Covid-19 e da falta de investimento público de 14 anos de governo conservador. Castigaram principalmente as falhas de Starmer ao apontar Peter Mandelson enquanto Embaixador nos Estados Unidos quando havia questões sobre o seu envolvimento no escândalo Epstein.

O escrutínio público e parlamentar aumentaram as dúvidas sobre a capacidade de decisão de Starmer.

Essa derrota nas eleições locais, que agudizou a impopularidade dentro do partido, levou a várias demissões no seu governo, com os ministros demissionários a pedirem publicamente a Starmer que fizesse o mesmo. “Chegámos ao fim da estrada”, dizia a ministra Jess Phillips. A pressão tornou-se tal que os media discutiam quando, não se, o primeiro-ministro ia sair. Até agora, Starmer tinha resistido.

Keir Starmer emociona-se ao anunciar demissão. Reino Unido conhece novo primeiro-ministro no verão
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Porque sai então agora Starmer?

A palavra final, no entanto, pertencia a Starmer. Só ele podia decidir o seu futuro. Isto porque outros pretendentes a Downing Street não reuniam ainda o apoio de 81 deputados necessário para desafiar a liderança do partido.

Andy Burnham, até agora mayor de Manchester, demitiu-se para se tornar deputado e poder desafiar Starmer.

A sua vitória contundente em Makerfield, onde o Reform de Nigel Farage tinha uma presença tão forte solidificou a ideia de que Burham, conhecido como “King of the North” numa referência à série televisiva Game of Thrones (Guerra dos Tronos), é a pessoa certa para mudar a narrativa de que Farage está num caminho imparável até Downing Street.

O apoio parecia garantido e no domingo, 21 de Junho, a música mudou. Um dos grandes apoiantes de Starmer e ministro da Economia, Peter Kyle, deu uma ronda de entrevistas em que admitiu que o primeiro-ministro estava consciente das “realidades políticas” e garantiu que Starmer teria sempre os interesses nacionais em primeiro lugar. O “quando” era agora.

Eleição ou coroação?

Até agora, Starmer garantia que iria defender a sua posição, mas essa hipótese está agora afastada.

A 9 de Julho começa oficialmente o processo de eleições para líder do partido trabalhista. A corrida, no entanto, pode ser solitária: o antigo ministro da Saúde Wes Streeting era um dos principais candidatos e já demonstrou o seu apoio a Andy Burnham. Dificilmente mais alguém se tentará intrometer no caminho para Downing Street.

O novo primeiro-ministro deverá tomar posse antes do regresso do Parlamento, em setembro.

Fonte> www.rr.pt

Crédito da imagem: Neil Hall / EPA