Portugal é o 2º país da UE onde atestar o carro mais pesa na carteira

Portugal é o segundo país da UE onde encher um depósito de gasolina mais pesa no rendimento das famílias, sendo que apenas na Grécia o cenário é mais penalizador para os consumidores.

No que respeita ao diesel, a situação é ligeiramente menos negativa, sendo que o preço em função dos rendimentos fica na quinta posição europeia, novamente com a Grécia a liderar, e isto apesar de o preço por litro em termos absolutos não ficar no top 5 em qualquer um dos combustíveis e dos preços à saída da refinaria não distarem do resto da Europa.

A análise do JE conclui que um depósito de 40 litros de gasolina pesa, aos preços desta semana, 4,32% do rendimento bruto mensal médio nacional no final do ano passado, que, segundo os valores obtidos através da AMECO, a base de dados macroeconómicos da Comissão Europeia, estaria em 1.869,77 euros no final de 2025.

Note-se que este valor inclui bónus e prémios, excluindo compensações para a Segurança Social.

Isto significa que os consumidores portugueses são os segundos da UE onde atestar mais pesa na carteira, apenas ultrapassados pelos gregos, onde um depósito de gasolina leva 6,49% do rendimento mensal de 1.305,02 euros.

Além de terem ganhos mais baixos, os gregos enfrentam ainda um preço mais alto por litro do que em Portugal, com 2,119 euros contra 2,009, segundo o levantamento feito pelo portal dedicado GlobalPetrolPrices.

Ao JE, o especialista em mercados de energia da DECO PROteste, Pedro Silva, começa por referir que “Portugal compara bastante bem com a generalidade e com a média europeia nos preços à saída da refinaria”, pelo que o grande diferenciador é a questão fiscal. E, mesmo com as medidas do Governo, nomeadamente o desconto via Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), o preço na bomba continua a aumentar.

Com uma procura altamente rígida, “o consumo de combustíveis em Portugal é quase completamente inflexível e insensível ao sinal de preços”, o que deixa a população dependente desta matéria-prima e, por arrasto, vulnerável às suas variações de preço.

E tal é verdade não só para as famílias, sobretudo as que vivem fora das grandes áreas metropolitanas, mas também para o sector empresarial, onde a logística obriga quase invariavelmente a consumos consideráveis de combustíveis.

Diesel pesa menos

Olhando para os valores absolutos, Portugal regista o sexto litro mais caro de gasolina na UE e o 11º no caso do diesel, com 1,954 euros.

Em janeiro deste ano, os dados da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) apontam para um preço médio de 1,818 na gasolina e 1,636 no diesel, o que significaria aumentos de 10,5% e 19,4%, respetivamente.

A título comparativo, Espanha tem o quarto litro de gasolina mais barato da UE, com 1,563 euros, e o terceiro de diesel, com 1,689.

“Somos ainda uma economia muito dependente, nomeadamente do gasóleo”, completa, lembrando, por exemplo, os segmentos agrícola e das pescas, onde o combustível é essencial.

Com a subida deste consumo intermédio, a inflação irá subir (e tal já se nota), o que arrisca voltar a forçar o Banco Central Europeu (BCE) a subir juros, isto numa altura em que o crescimento na zona euro continua a roçar o anémico.

A situação portuguesa no diesel é menos gravosa, mas ainda assim preocupante. As famílias nacionais gastam, em média, 4,2% dos seus rendimentos brutos para atestar um depósito de gasóleo (assumindo 40 litros), o que as coloca no quinto lugar da UE, atrás novamente da Grécia, com 5,56%, e da Bulgária, Hungria e Eslováquia, com 4,83%, 4,31% e 4,21%.

Todos estes países registam rendimentos médios mais baixos do que Portugal. Em sentido inverso, Luxemburgo e Alemanha registam, tanto na gasolina, como no diesel, os rácios mais baixos em função do rendimento, sendo também os países com famílias mais ricas, em média.

No caso do gasóleo, Malta arrecada o terceiro posto (mas os preços malteses são fixados pelo Estado e não variam sem decreto), enquanto a Irlanda ocupa essa posição na gasolina.

Olhando para os quatro países, apenas na Irlanda o diesel é mais caro do que em Portugal – e por apenas 0,002 euros.

Guerra e transição penalizam

A guerra desencadeada pelos EUA e Israel contra o Irão, que levou às atuais perturbações em Ormuz e no mercado global de energia, explicam boa parte da questão, mas a sua resolução não é garante de uma reversão imediata ao anterior paradigma.

“Mesmo que Ormuz venha a abrir, há infraestruturas que foram atingidas e todo um restabelecer que vai demorar tempo. Não é imediato, não é sequer de um mês para o outro ou de um semestre para o outro; portanto, a perspetiva é de mais 20 cêntimos em cima dos preços de dezembro [do ano passado] e janeiro”, aponta o especialista da DECO PROteste.

A confirmar-se, tal significaria preços em torno de 1,90 euros por litro “de forma sustentada até ao final do ano”.

Além da questão fiscal, a obrigatoriedade de incorporação de biocombustíveis em Portugal também não ajuda a conter a escalada dos preços, continua Pedro Silva. Em 2023, esta componente teria de ser 11%, por decreto, mas tal foi atualizado para 13% para 2025 e 2026 – agravando assim ainda mais o preço.

“Se os biocombustíveis tivessem o mesmo custo dos derivados, seria uma maravilha; mas não, são sobrecustos”, aponta, argumentando que tal acaba por constituir “um custo para os portugueses de estarem no pelotão da frente” da descarbonização.

Fonte e crédito da imagem: O Jornal Económico / Portugal