O tradicional fogo de artifício do São João não vai ser o único momento que, até final do mês, deverá colar os olhos de muitos milhares de pessoas aos céus do Porto.
Além do festival aéreo Air Invictus, já neste fim de semana, a performance “One page” promete atrair as atenções de uma multidão que poderá contemplar a obra a muitos quilómetros, tal o seu forte aparato visual e cénico.Entre as margens de Gaia e do Porto, o artista chinês Cai Guo-Qiang vai apresentar um espetáculo “irrepetível”, nas palavras do comissário do Babell.
Na apresentação do espetáculo, Rui Couceiro revelou que a performance foi “desenhada especialmente para acontecer no rio Douro” e irá conter elementos alusivos à região onde se insere, assim como referências diretas ao facto de o evento estar inserido num festival literário.
Convidado pela Fundação Livraria Lello a visitar as cidades do Porto e de Gaia, Cai Guo-Qiang ficou, ainda segundo aquele responsável, rendido à imponência do cenário urbano que lhe foi apresentado, conseguindo acomodar o espetáculo no seu sempre muito preenchido rol de projetos.
Drones e pirotecnia
Misturando drones e pirotecnia, “One page” desenrolar-se-á a 130 metros de altitude, o equivalente ao dobro da altura da Ponte Luís I, e irá implicar uma complexidade logística pouco habitual. Os 600 drones envolvidos serão pilotados por uma equipa de 100 especialistas vindos expressamente de França e terá a colaboração de uma empresa portuguesa com larga experiência na área.
A “ponte de olhares” que “One page” deverá suscitar remete, em parte, para o trabalho mais conhecido de Guo-Qiang. Em “Sky ladder”, o artista concebeu uma escada com mais de 500 metros, revestida de pólvora e fogo de artifício, suspensa por um balão de hélio.
A expectativa que, por norma, rodeia cada apresentação pública do autor deverá traduzir-se, segundo estimativas da organização, na vinda de um número elevado de seguidores oriundos de diversas zonas do globo.
Padrinho do evento, Pedro Abrunhosa confessou ser um admirador de longa data da obra de Cai Guo-Qiang, em particular da sua efemeridade. “Ao contrário do que se pensa, a arte não deve ser eterna. Ela é intangível e inefável. É o que fica por dentro, não é algo que se leva”, reforçou o músico.
Também presente na sessão de apresentação do espetáculo, o autarca Luís Filipe Menezes elogiou publicamente a ação da Lello, considerando-a um “exemplo” para o país, desafiando também o seu presidente, Pedro Pinto, a associar-se a dois projetos que a Câmara de Gaia pretende implementar: a criação de uma livraria na zona envolvente ao Jardim do Morro e a organização de um colóquio dedicado a Fernão de Magalhães, que asseguraria a vinda de 50 responsáveis autárquicos das cidades pelas quais o navegador passou.
O céu como tela
Em vez de pincéis, Cai Guo-Qiang recorre à pólvora para fazer das suas obras de arte autênticos monumentos visuais, tão impactantes quanto efémeros, que lhe têm granjeado amplo reconhecimento por todo o Mundo.
Nascido em Qanzhou em 1958, concluiu os seus estudos teatrais em Xangai. A influência da cultura e dos costumes chineses está fortemente impregnada nos seus trabalhos, premiados em 1999 com o Leão de Ouro da Bienal de Veneza.
Outro momento decisivo do seu percurso artístico aconteceu em 2008, quando foi o artista escolhido para as cerimónias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim.
Representado nos mais importantes museus mundiais, como o Guggenheim de Nova Iorque e o Prado em Madrid, viu a plataforma de streaming Netflix lançar em 2016 um documentário sobre a sua obra, realizado por Kevin MacDonald, que seria galardoado com um Oscar. Vive nos EUA desde os anos 1990.
Fonte e crédito da imagem: Jornal de Notícias / Portugal