A presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Maria José Fernandes, exige um novo modelo de acesso ao ensino superior.
“Provou-se que, à partida, não funciona. Seria necessário repensar este modelo… Diminuir o peso dos exames, diminuir o número de exames, julgo que uma reflexão alargada deve ser feita nesse sentido”, diz em entrevista à Renascença.
Num ano em que há uma redução acentuada do número de estudantes colocados, especialmente nos politécnicos, a presidente do CCISP mostra-se preocupada.
Apesar do cenário, Maria José Fernandes garantiu que nenhuma instituição politécnica está em risco imediato: “Elas são muito necessárias nas regiões onde estão inseridas e são motores de desenvolvimento.”
Este ano verifica-se uma queda abrupta das candidaturas e colocações no Ensino Superior, mas, se retirarmos os anos em que as regras de acesso foram adaptadas por causa da pandemia, esta queda deixa de ser significativa. As regras de acesso justificam esta quebra?
Eu julgo que, em parte, podemos justificar por aí. Nós tínhamos estado, há vários anos, a subir o número de estudantes no ensino superior, que tanta falta fazem ao país, e vemos decair agora de uma forma abrupta que nos parece muito significativa e que vai um bocadinho contra aquilo que era a expectativa e aquilo que devia ser a evolução normal.
Olhando para trás, estamos ainda abaixo do modelo anterior. Nós tivemos um período antes da pandemia, um período durante a pandemia e temos agora um novo período, e este novo período é mais exigente ainda do que era o anterior, antes da pandemia. O CCISP foi naturalmente contra este modelo já em 2023.
Portanto, na perspetiva dos politécnicos, será então a questão das regras de acesso aquilo que pesa, mais do que questões demográficas, económicas ou de alojamento?
Sim. Nós percebemos que a demografia é, de facto, um problema, mas os números, pelo que nós apurámos, ainda não demonstram a relação direta e abrupta que houve entre o número de estudantes, os candidatos e a demografia.
Por outro lado, a questão do alojamento é naturalmente muito importante e preocupante para os estudantes e suas famílias, que suportam as despesas do estudante deslocado, mas é um problema que já existe há vários anos e que se tem vindo a agudizar nos últimos três ou quatro anos. É uma questão que já existia no ano passado e, mesmo assim, não houve uma quebra de alunos como a que se verificou este ano.
Portanto, entendemos que a justificação é, naturalmente, as novas regras de acesso, que se vieram a mostrar penalizadoras para os estudantes e para as instituições.
Olhando para os números, percebemos que esta quebra de colocações é transversal, relativamente às universidades e aos politécnicos, mas o quadro é mais severo para os politécnicos. Está preocupada com o seu setor?
É uma preocupação que já tínhamos. Há uma quebra generalizada em todas as instituições do país, mas mais acentuada nos territórios de baixa densidade, onde estão localizados grande parte dos politécnicos.
Já em anos anteriores sabíamos que, nestas regiões, é mais difícil captar estudantes. É preciso políticas públicas para a captação de pessoas e a melhor solução é reforçar as instituições de ensino superior com estudantes.
No que diz respeito aos politécnicos, dado que há maior quebra de alunos, isso vai representar também uma quebra nas receitas próprias das instituições. Prevê que algum politécnico possa estar em risco?
Não, julgo que nenhuma instituição politécnica estará em perigo, até porque elas são muito necessárias nas regiões onde estão inseridas e são motores de desenvolvimento. Por outro lado, estamos a falar da primeira fase da colocação de estudantes para o ano letivo 2025-26.
Ainda teremos a segunda fase, vamos ver, mas não estou muito otimista, mas há todos os outros contingentes de estudantes que não são oriundos do ensino secundário: internacionais, titulares de outros concursos, etc.
Portanto, estes números ainda não são os números finais, haverá outros estudantes a ingressar. Mas, de todo, julgo que as instituições politécnicas não estarão em causa.
Acho sim que, enquanto país, devemos olhar para estes números e perceber efetivamente o que precisamos e o que queremos para o ensino superior e para o país. Este sinal é claro e merece reflexão.
Acha que será necessário, por exemplo, rever a oferta educativa que existe ao nível do ensino superior?
Essa análise nós, as instituições, já fazemos. É normal e natural alterar cursos, criar novas ofertas formativas ou encerrar algumas ofertas que já cumpriram o seu ciclo. As instituições já fazem esse trabalho.
Acho que é preciso pensar no que Portugal quer para a sua população. Se de facto queremos formar mais jovens e ter mais estudantes no ensino superior, precisamos de políticas públicas nesse sentido.
Então quais, no seu entender, seriam as mudanças mais urgentes para garantir essas políticas públicas?
Eu julgo que seria mudar o modelo de acesso. Provou-se que, à partida, não funciona. Seria necessário repensar este modelo de acesso, implementado pela primeira vez este ano. Mas isso merece uma reflexão conjunta do setor.
Deveria mudar em que sentido?
Diminuir o peso dos exames, diminuir o número de exames. Julgo que uma reflexão alargada deve ser feita nesse sentido. O CCISP reunirá na próxima, ainda não temos nenhuma proposta concreta, mas apresentaremos uma à tutela.
Fonte: www.rr.pt
Crédito da imagem: Hugo Delgado / Lusa