Os planos de Mosquera para a Volta a Portugal: subir categoria, não tocar nas datas e abrir portas ao mundo

O ex-ciclista Ezequiel Mosquera é o novo rosto da organização das principais provas de ciclismo nacional e o objetivo é “dar-lhes a volta”, mas acredita que precisará de tempo para implementar as mudanças.

O primeiro teste será na Volta ao Algarve, que arranca já na quarta-feira. Mais para a frente no calendário, a sua empresa organizará também a Volta ao Alentejo e a Volta a Portugal.

Em véspera de arranque da Algarvia, Mosquera sentou-se com a Renascença, num episódio especial do podcast “Estendal da Volta”, para debater a prova e como melhorar a Volta a Portugal, uma competição que o galego considera ter como ponto forte uma identidade cultural no país e que pode servir de preparação para as Grandes Voltas.

Está tudo pronto para o arranque da Volta ao Agarve?

Está tudo pronto e não está nada pronto nestas organizações. Tens a sensação de que falta sempre alguma coisa, está o grupo todo em alerta para o que pode acontecer. Uma prova de ciclismo atinge tantas áreas, algumas fora do teu controlo. Não é um pavilhão, estás por centenas de quilómetros, que estão controlados, mas nunca a 100%, e tudo isso cria tensão própria de uma prova de ciclismo. É gratificante, mas há sempre este ponto de tensão.

No ano passado, houve um problema em Lagos, com os sprinters a irem por fora das barreiras. Situações desse género foram olhadas com especial atenção?

Sim. Temos um final idêntico este ano. Pusemos ênfase nesse final, claro, mas isso são coisas que ao mínimo erro podem acontecer. Não é algo criticável à anterior organização, que organizou bem. Pode acontecer em qualquer etapa, já aconteceu na Volta a Espanha e na França, os ciclistas saem atrás da mota da televisão e até já se perderam etapas de montanha por isso. Estamos em cima do tema.

Houve consequências negativas disso? A Visma optou por não vir, por exemplo.

Acho que não. Circunstâncias destas acontecem a toda a hora, em Múrcia tiverem de parar a corrida e mudar tudo. As equipas são conscientes das dificuldades de uma organização. Claro que não gostam de sprintar junto aos carros, é perigoso, mas não é isso que condiciona a Volta ao Algarve. A Visma tomou a decisão de não vir, mas não foi por estas situações. Conheço-os mais ou menos bem, definem onde arranca a época do Jonas Vingegaard. Marcam o calendário em novembro. A Volta ao Algarve tem um íman normal pelo clima, pela data, por ser uma zona pequena. Podem estar à vontade, com bons hotéis. Há boas estradas. É uma região perfeita para a prática da modalidade. Há sempre muita procura.

Episódio especial. Os planos de Mosquera para a Volta a Portugal: subir a categoria e abrir as portas ao mundo

Estendal da Volta

Tem de rejeitar equipas, não é? O pelotão não deixa muitas vagas.

É uma situação complicada, há corridas lá fora com muito orçamento, vontade e envolvimento, e não conseguem ter a participação que a Volta ao Algarve tem. É um pequeno tesouro que é preciso conservar.

O que o levou a querer organizar as provas portuguesas?

Parte de uma proposta, de uma necessidade de mudar a Volta a Portugal, dar uma volta grande a essa prova. Com todo o respeito que isso merece. Analisamos muitas coisas e tudo nasceu daí. Depois, juntamos com a colaboração na Volta ao Algarve e Alentejo. A responsabilidade foi aterrar aqui no Algarve, a burocracia é diferente e foi tudo ao sprint. Estivemos um mês e tal a descobrir, conhecer.

É totalmente diferente, os rankings de autoridade, tudo é diferente. Tivemos grandes colaboradores neste processo, foi absorver muita informação e começar a preparar a Volta a Portugal, que seja pela altura do ano, pelos dias, pelos pontos, tem dificuldade muito maior em trazer boas equipas e é um evento social muito grande.

Ainda antes de irmos à Volta a Portugal: subir a categoria World Tour é impensável porque fecharia a prova ao pelotão português? Pouco prático?

Há muitas corridas que anseiam pela categoria WorldTour e aqui não sei se é preciso. Seria bom que uma prova portuguesa tivesse essa categoria, mas temos este ecossistema de muitas equipas pequenas que têm um calendário com visibilidade e que dão vida ao ciclismo aqui.

Quando vim cá correr, havia equipas maiores, alguns ciclistas vinham aqui para ganhar dinheiro. É preciso procurar novamente isso, era bom que houvesse equipas portuguesas com sucesso internacional. Categoria World Tour poderia ser, não para já. Seria um processo mais a longo prazo, há 11 equipas World Tour, poderíamos ter umas 15. Já temos um foco internacional muito grande sem essa categoria. Não acho relevante ao dia de hoje.

Há 16 anos, Ezequiel Mosquera venceu uma etapa na Vuelta. Foto: Miguel Vidal/Reuters
Há 16 anos, Ezequiel Mosquera venceu uma etapa na Vuelta. Foto: Miguel Vidal/Reuters

A “startlist” não conta com Pogacar, Vingegaard e Remco. Pode dar a ideia de que é uma edição menos forte, mas não é o caso. É um leque de ciclistas muito forte…

Do meu ponto de vista, vai ser uma prova aberta. Ter aqui o Remco ou o Pogacar, para a organização seria um sucesso. Está o quarto melhor, que é português. O João trata por tu o Vingegaard, como se viu na Volta a Espanha. Do ponto de vista mediático, há a rivalidade que existia com o Juan Ayuso. Há grande expectativa em torno disso. João Almeida é português, está aqui e vem com ideias.

Quem acha que vai vencer?

Ayuso é mesmo obstinado, é um tipo muito forte, mas o João mostrou que quando coloca um objetivo, não é para brincar. É o favorito, sendo em Portugal e com os escudeiros portugueses que tem ao seu lado. Há terreno para haver guerra.

Há muita margem para melhorar a Volta ao Alentejo ou a Volta a Portugal?

Há margem. Eu digo sempre que não existe sucesso nacional sem um contexto internacional. O ciclismo hoje é global, se queres ter uma Volta de sucesso e queres que seja um grande evento, como é, não pode estar só fechada a Portugal. É o primeiro dos problemas e há que colocar o foco aí. Há que pensar também subir a Volta ao Alentejo a “.1”. Tem muito nome lá fora, venceu o Miguel Induráin.

Subir de categoria é importante na Volta a Portugal?

Há que forçar isso. A Volta a Portugal não deveria ter menor categoria do que a Volta ao Algarve, pelo que significa no país. É muito difícil conseguir equipas por causa dos pontos. A Volta a Portugal é a mais prejudicada, de longe, pelo atual sistema de pontos da UCI, porque são muitos dias. Há uma diferença brutal para as clássicas de um dia. Se uma prova por etapas é “.1”, tem um desequilíbrio brutal e, se tiveres muito dias, os pontos são irrelevantes. Ainda por cima é dura, em agosto, com calor. Para este ano já não dá para subir a categoria. A Volta a Portugal tem um grande seguimento nacional, é património nacional. Há muitas provas World Tour que não têm a identidade que esta tem aqui, toda a implicação de recursos públicos e privados, a enorme aposta da RTP. São circunstâncias que se vê na Volta a França, Itália, Espanha e algumas clássicas. Não existe tanto lá fora. É preciso dar-lhe uma volta, mas tem o essencial, o motor em baixo para fazer muitas coisas.

Este ano, já vai ser possível melhorar o pelotão de alguma forma? Em 2025, só veio uma das ProTeams espanholas…

Estamos a trabalhar no tema, não é um cenário fácil. O calendário está muito saturado em agosto. Há a Volta a Polónia e Burgos, são cinco frentes. Conseguir que uma equipa WorldTour deixe uma dessas e venha cá é difícil.

Volta ao Algarve arranca com nova organização e uma subida mais dura à Fóia. O que a torna tão atrativa?

Criar uma clássica para ajudar na questão dos pontos é opção?

Pode ser, sim…

Não me parece ser a sua opção preferida.

Há uma condicionante de que quantos mais dias são, menos pontos dá. Há uma possibilidade a explorar, que é vender a ideia nas equipas de que não existe uma experiência mais próxima de uma Grande Volta do que a Volta a Portugal. Imagina uma jovem promessa de uma equipa grande: queres experimentá-lo antes de levar a um Giro, ver como aguenta com tantos dias. Não é a Volta a França do futuro, a sensação do público, a montanha alta, média montanha, contrarrelógio curto e grande. Esse é o ativo que tem a Volta a Portugal para equipas que não precisem dos pontos, pensem em futuros vencedores de Grandes Voltas e que os aterrem aqui. Acontecia isto no passado.

É por aí a estratégia? Seduzir as equipas com esse argumento?

É o único argumento que temos para começar a mudar a direção e com o que não se conhece lá fora. As pessoas hoje só pensam em pontos, não analisam e pensam na potência que tem um evento num país. As equipas não deviam passar ao lado disso, porque as equipas são marcas. A própria UCI não devia deixar passar um evento que está para cumprir 100 anos e é património nacional e passa por uma prova a que ninguém liga lá fora. Isto é um evento dos que já não existem.

Percebo que vai ser um processo lento, de alguns anos, até mudar mesmo a prova…

De um dia para o outro não se muda. Há muitas ideias, muitos contextos que queremos dar à prova. Sobram ideias, agora é preciso trabalhá-las com a Federação. Não é só um evento desportivo, é vender o país. Qualquer lugar onde passe a Volta, há belezas para mostrar ao mundo, e isso é uma parte importante do ciclismo hoje em dia.

O tema da data é sempre muito falado. Ser em agosto faz parte da mística da prova, com a presença dos emigrantes, mas também a prejudica por ser tão em cima da Vuelta. Mudar o calendário está fora de questão?

Está numa altura tarde do calendário, as equipas já têm os ciclistas cansados, lesionados… Mudar o ativo de ter as estradas cheias pode reduzir o impacto da prova. Aqui há a ideia de que chega a agosto e chega a Volta a Portugal e a festa do ciclismo no país. Mudar de data não é a solução. Não se pode perder a identidade, que é o mais difícil de ter. O resto trabalha-se.

Volta ao Algarve atrai várias equipas de renome internacional. Foto: Luis Forra/EPA
Volta ao Algarve atrai várias equipas de renome internacional. Foto: Luis Forra/EPA

É o início do ciclo de pontos da UCI, podem estar ligeiramente mais desligadas. É possível pensar ter as ProTeams espanholas, sonhar com o regresso de uma Movistar, por exemplo?

Espero que seja melhor o pelotão, é um ponto fundamental a trabalhar. As ProTeams estão contactadas, se bem que temos quatro equipas espanholas na Liège-Bastogne-Liège, o que nunca aconteceu. Até a Volta a Itália está a ir buscar as equipas espanholas, talvez para deixar uma equipa italiana fora. Há respeito pela Volta a Portugal nas equipas espanholas, estão contactadas, há vontade de vir. A Caja Rural tem um calendário muito saturado e há que explorar a possibilidade de equipas que não precisam tantos de pontos e conheçam a Volta a Portugal. Há muitos diretores desportivos que sabem que Mondim de Basto é como o Alpe d’Huez. Continua a ser assim, os ciclistas gostam de viver isso.

Quando falo com as equipas portuguesas, dividem-se sobre qual deve ser o futuro da Volta a Portugal. Alguns fazem um balanço muito mau da qualidade da “startlist”, outros defendem que a Volta é para o pelotão português. Está preparado para irritar algumas pessoas?

Uma das primeiras coisas que pedi à Federação foi para me reunir com as equipas. Preciso de sentir que sou necessário. Eu conheço Portugal, mas só até certo ponto. É tudo difícil. Preciso de ver que posso ser útil. É certo que existe a zona de conforto de ser um evento em que as equipas portuguesas são protagonistas, mas sucesso exclusivamente nacional é muito difícil no ciclismo atual, para cativar as novas gerações, que olham para o João Almeida, para o António Morgado, Rui e Ivo Oliveira.

Acredito que um cenário como a Volta ao Algarve não seja o melhor para a Volta a Portugal, nem acho que fosse fácil que isso se dê. As equipas estão aqui a dar tudo para as clássicas e o Giro, mas em agosto isso não acontece. Alguns corredores podem ter objetivos para discutir a geral, mas não é bem assim. Não queremos as equipas portuguesas na cauda do pelotão. Queremos somar equipas grandes, nomes diferentes e que as equipas portuguesas sejam protagonistas. Uma Volta a Portugal ideal é com equipas estrangeiras e sucesso de todos. Mesmo na década de 90 quando vinham equipas boas, às vezes venciam os portugueses.

Para terminar, o contrato que assinou com a Federação Portuguesa de Ciclismo foi de apenas um ano. Precisa de mais tempo para implementar as mudanças?

Vamos ver como corre. Não é num ano… quanto maior for o barco, mais lenta é a viragem. Há que analisar tudo, ver que o calendário internacional está muito saturado. É preciso ver muito bem os passos que podemos dar. Tudo requere tempo, vamos trabalhar este ano, sprintar até agosto para que se faça tudo o que é possível. A partir daí, ver a reação em Portugal e lá fora nas equipas.

Fonte: www.rr.pt

Crédito da imagem: Tiago Petinga / EPA