“O dinheiro do Estado não cai do céu”. Cavaco Silva defende reformas “fundamentais” para aproximar Portugal dos mais ricos

Em entrevista sobre assuntos europeus, em vésperas de ser distinguido com a Ordem do Mérito Europeu, Cavaco Silva reconhece que a Europa terá de investir mais na Defesa para reduzir a dependência dos Estados Unidos.

Aníbal Cavaco Silva, antigo chefe de Estado português, sublinha em entrevista exclusiva à Renascença, sobre a necessidade de ser constituída “uma força, uma identidade europeia de Defesa separada mesmo da NATO, mas em cooperação com a NATO, para poder intervir em situações em que os Estados Unidos não têm interesse”.

A adjetivação aplicada pelo antigo Presidente português para qualificar o atual inquilino da Casa Branca não poderia ser mais contundente: “super errático” e “não confiável”. Cavaco Silva conclui de forma enfática que “a Europa não deve acobardar-se perante as exigências do Presidente Trump”.

Questionado pela Renascença sobre a capacidade dos atuais líderes europeus para responderem a um momento tão complexo, o antigo Presidente da República faz rasgados elogios à determinação da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Considera que “tem realizado um trabalho excelente num tempo muito difícil, num tempo de guerra na Ucrânia” e também no Médio Oriente. Neste ponto, Cavaco Silva faz um sublinhado: “Devo dizer que confio muito mais na Comissão Europeia do que no Conselho Europeu. E porquê? Porque no Conselho Europeu vêm, com grande frequência, ao de cima, os interesses particulares de cada país”.

Nesta entrevista exclusiva, o antigo Presidente dedica uma extensa passagem ao Relatório Draghi e às linhas de orientação que a União Europeia deve seguir para ultrapassar atrasos em relação aos Estados Unidos e à China. É essencial, diz, garantir mais crescimento económico e mais produtividade. E entre as reformas mais prementes, Cavaco Silva aponta a necessidade de “criar um verdadeiro mercado de capitais” que, explica, tornaria possível aos Estados e às empresas fazer grandes emissões de dívida a nível europeu.

Portugal vive há mais de 40 anos na família europeia e o antigo primeiro-ministro considera que os portugueses têm “milhares de razões para se congratularem com a adesão do país à União Europeia e à Zona Euro”. Cavaco Silva reconhece a existência de erros ao longo do processo que nos levaram a ser ultrapassados por “alguns países que entraram na União Europeia 20 anos depois de nós”. Erros, recorda, “que um país da Zona Euro não pode cometer” e que implicaram a vinda da troika, em 2011.

O antigo Presidente insiste, por outro lado, que “sem um conjunto de reformas fundamentais que são decisivas para um crescimento económico mais forte, da ordem dos 3% a 4% ao ano, Portugal não conseguirá aproximar-se dos níveis de desenvolvimento económico e social dos países mais ricos”, porque “o dinheiro do Estado não cai do céu”.


Vai agora ser condecorado com a nova Ordem Europeia do Mérito, distinção justificada pela presidente do Parlamento Europeu “pelos contributos significativos para a integração europeia, pela promoção e defesa dos valores europeus”. Que significado tem esta distinção para si?

Eu sinto-me honrado e sensibilizado por ter sido escolhido por um júri internacional para integrar o primeiro grupo de pessoas que vai ser distinguido com a Ordem do Mérito Europeu criada pelo Parlamento Europeu. Eu, como professor universitário, escrevi mais de uma dezena de artigos sobre a União Europeia, defendendo o seu aperfeiçoamento e aprofundamento. Eu escrevi dois livros sobre a Zona Euro e a União Económica e Monetária.

Como político, tive o privilégio de exercer as funções de primeiro-ministro na primeira década da presença de Portugal na União Europeia, que foi um tempo de mudanças de dimensão histórica: a criação do mercado interno, a União Económica e Monetária.

E, depois, como Presidente da República, acompanhei o debate e as reflexões que foram feitas sobre as reformas que eram exigidas à União Europeia na sequência da crise financeira internacional de 2008 e, depois, da crise da dívida soberana de 2011.

Portanto, no dia 19 deste mês lá estarei, acompanhado com a minha mulher, que é o pilar da minha vida, para receber esse galardão: a Ordem do Mérito Europeu.

Aníbal Cavaco Silva em entrevista à Renascença. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
Aníbal Cavaco Silva em entrevista à Renascença. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença

Gostava que recorresse um pouco às suas memórias da altura. Quando era primeiro-ministro, conviveu com personalidades europeias particularmente marcantes. Estou a pensar, por exemplo, em Jacques Delors, Helmut Kohl, François Mitterrand, Filipe Gonzalez, também na menos europeísta, mas muito carismática, Margaret Thatcher, com quem julgo que se dava particularmente bem. Thatcher tinha uma especial simpatia por si, ao que julgo saber. Como é que recorda estes primeiros passos de Portugal na União Europeia? Quais são as suas memórias de todas estas personalidades com tanto carisma?

Eu contactei com grandes líderes da União Europeia, líderes dignos dos pais fundadores Robert Schuman, Jean Monnet, Konrad Adenauer, Paul-Henri Spaak…grandes líderes.

Jacques Delors foi um dos mais brilhantes europeístas que eu conheci.

Ao chanceler Kohl devemos a criação da Zona Euro, a moeda única. Os alemães e o Banco Central Alemão eram contrários ao abandono do marco alemão, que era uma moeda muito forte. Ele impôs a sua vontade considerando que era fundamental para o aprofundamento da União Europeia a criação de uma moeda única.

Mitterrand liderou a Europa num tempo de algumas hesitações, na sequência da queda do muro de Berlim e desempenhou aí um papel importante para ancorar a Alemanha ao projeto europeu, impulsionando a união política e a criação da união monetária.

Referiu também Margaret Thatcher: A senhora Thatcher era uma mulher muito inteligente. Estava absolutamente convencida de que a defesa dos interesses britânicos residia apenas na integração dos mercados, em facilitar as transações no domínio das mercadorias, dos bens, dos serviços e dos capitais… mas nada defensora da união política nem da solidariedade entre os Estados-membros.

Margaret Thatcher escutava a sua voz?

Ela sentava-se ao meu lado. Tinha uma certa simpatia por mim porque me tinha doutorado numa universidade inglesa. Não criou dificuldades particulares a Portugal durante a sua presença. Ela depois foi afastada, na sequência de uma crise que ocorreu antes do Tratado de Maastricht, quando houve um aprofundamento da união política e criada a União Económica e Monetária. Foi afastada dentro do seu próprio partido. Foram grandes líderes com os quais eu contactei.

Vejo os seus olhos brilharem quando fala desses líderes. Já passaram muitos anos. Bem sei que a realidade geopolítica e económica é hoje particularmente complexa, e há guerra na Europa. Temos hoje os líderes europeus com a força e o carisma necessários para enfrentar estes novos desafios, as situações inimagináveis que vivemos agora, para recuperar a importância que a Europa tinha nesses tempos?

Normalmente fazem-se muitas críticas aos líderes europeus mais recentes, mas há uma coisa que eu quero sublinhar: ao longo dos anos, a União Europeia passou por várias crises, mas houve uma constante com todos os líderes: em lugar de retroceder, a decisão foi sempre avançar. Avançar para mais Europa, mais integração, mais aprofundamento da União Europeia.

Isso foi muito importante porque, na sequência da crise internacional de 2008 e a crise da dívida soberana, viveram-se momentos muito difíceis na Europa, em particular pela crise muito grave na Grécia, mas também na crise em Portugal e na crise na Espanha. E aí houve que tomar algumas medidas muito difíceis. Devemos reconhecer que os líderes da altura fizeram todos os possíveis para construir mais Europa, uma Europa mais aprofundada, corrigindo alguns erros do passado.

E acredita que é isso que vai acontecer agora?

Eu devo dizer que a presidente da Comissão Europeia, a Sra. Ursula von der Leyen, tem realizado um trabalho excelente num tempo muito difícil, num tempo de guerra na Ucrânia. Ela tem enfrentado com muita força e determinação aqueles que tentaram restringir o apoio europeu à Ucrânia, confrontada com uma guerra montada por um ditador, o Sr. Putin. E o mesmo está a acontecer agora com a Guerra no Médio Oriente.

Eu devo dizer que confio muito mais na Comissão Europeia do que no Conselho Europeu. E porquê? Porque no Conselho Europeu vêm, com grande frequência, ao de cima, os interesses particulares de cada país. Eu acho que em primeiro lugar devem estar os interesses comunitários. Mas há países, e ultimamente tem acontecido um pouco isso com aqueles que, tendo vivido sob um regime comunista, foram acolhidos com grandes apoios na União Europeia…

Está a falar da Hungria…

É o caso da Hungria, República Checa, Eslovénia, muitos outros desses países que beneficiaram muito de terem sido recebidos com braços abertos e com grandes apoios na União Europeia, e que muitas vezes colocam à frente das decisões importantes, dos grandes desafios que é preciso tomar, interesses particulares do próprio país.

Já agora só uma pergunta, porque me falou da Hungria, nomeadamente. É com esperança que vê a chegada ao poder de Péter Magyar, substituindo o Sr. Orbán que era muito próximo do Sr. Putin?

Temos de aguardar para ver, mas acho que foi uma demonstração da defesa da democracia, e dos princípios europeus, aquilo que os votantes húngaros fizeram, rejeitando o primeiro-ministro Orbán e a política do seu partido.

Eu acho que foi uma lição importante dada pelo eleitorado húngaro. Considero que isso foi da maior importância para a Europa. Temos de aguardar pelo comportamento do novo primeiro-ministro que, penso, vai em sentido positivo naquilo que se refere à construção de uma União Europeia mais forte, mas vamos aguardar para ver.

E nesse ponto ainda, acredita que isto pode ser um sinal de alguma mudança? Acabou de se referir aos países que olham primeiro para si, antes de olharem para a União Europeia. Esta vitória de Péter Magyar pode ser um ponto de viragem nos discursos mais nacionalistas?

Neste momento, de alguma forma já se conhecem as linhas de orientação que a União Europeia deve seguir para conseguir ultrapassar atrasos em relação aos Estados Unidos e à China, naquilo que se refere ao crescimento económico, à produtividade, aos avanços digitais e tecnológicos.

Devo recordar que a União Europeia é uma construção única a nível mundial. É uma construção baseada em valores e interesses comuns, onde vigora uma partilha de soberania entre os Estados-membros. Não encontramos algo de semelhante noutra parte do mundo. É uma construção verdadeiramente única a nível europeu e a nível mundial. Os desafios que se enfrentam, neste momento, têm em vista reforçar o poder geoeconómico, geopolítico e tecnológico da Europa, recuperando atrasos que se acumularam em relação aos Estados Unidos e à China.

Há reformas importantes que têm de ser levadas a cabo, desde logo no mercado interno: eliminar toda a burocracia que ainda existe, e torna mais difíceis as transações entre os diferentes países da União Europeia, transações de bens, de serviços, de capitais e até de circulação de pessoas. Criar um verdadeiro mercado de capitais…

"A Europa não deve acobardar-se" perante Donald Trump, defende Cavaco Silva. Foto: Carlos Barria/Reuters
“A Europa não deve acobardar-se” perante Donald Trump, defende Cavaco Silva. Foto: Carlos Barria/Reuters

Esse seria um bom ponto de partida, presumo…

São passos muito importantes que têm de ser dados porque a União Económica e Monetária ainda não está completa. É preciso avançar mais e, com isso, corrigir esta situação em que existem regras muito diferentes de país para país no que se refere ao funcionamento dos mercados de capitais.

Se nós tivéssemos um mercado de capitais verdadeiramente europeu, seria possível aos Estados e às empresas fazer grandes emissões de dívida a nível europeu, podendo competir com as grandes emissões de dívida norte-americana. Esse é um passo muito importante. É também essencial – e aí a Sra. Von der Leyen e a Comissão Europeia têm dado passos importantes – reforçar as relações externas e aumentar o número de acordos comerciais com outros países.

Isso foi feito com a Índia, com o Japão, com o México, com a Austrália. Isso é da maior importância, principalmente num tempo em que temos nos Estados Unidos um Presidente super errático, que considera que as relações comerciais não são para benefício daqueles que intervêm na transação, mas apenas para benefício dos próprios Estados Unidos. Portanto, temos nos Estados Unidos um Presidente não confiável para a Europa, mas a Europa não deve acobardar-se perante as exigências do Presidente Trump.

Com toda a sua experiência de líder europeu, ao longo de tantos anos, é esse o seu principal conselho: “Não se acobardem”?

Nunca imaginei que pudéssemos viver num mundo com um Presidente norte-americano, a grande potência económica e militar, com o perfil do Presidente Trump. Ele diz hoje uma coisa, e não sabemos o que dirá amanhã. Faz hoje uma coisa, e não sabemos o que fará amanhã.

E humilha também outros líderes…

Sim. Há quem diga mesmo que estamos numa fase, até, de um certo “macarthismo” nos Estados Unidos, a perseguição de instituições particulares, de pessoas em particular.

Portanto, a Europa tem de adaptar-se a esta nova situação. Não me parece que seja vantajoso aceitar, com facilidade, exigências que sejam contrárias aos interesses da Europa, colocadas com uma pressão às vezes incompreensível por parte do Presidente norte-americano.

No início, quando os líderes europeus foram surpreendidos pela forma de ser de Donald Trump, parece ter existido alguma cedência por parte de alguns líderes europeus, mas estão a mudar. Keir Starmer, por exemplo, mudou. O chanceler alemão também já tem uma posição mais firme. E Pedro Sánchez, muito criticado no plano interno em Espanha, é elogiado pela forma como lida com Donald Trump. Será esta a fórmula mais adequada?

Bem, os líderes europeus não esperavam, inicialmente, este tipo de comportamento por parte do Presidente Trump. E, portanto, têm vindo a aprender no sentido certo. As coisas não começaram muito bem naquele acordo que foi feito na Escócia. Acho que a Europa fez aí cedências que não devia ter feito. Mas agora já não sabemos que tarifas que serão aplicadas amanhã…

Provavelmente nem Donald Trump sabe…

A Europa, neste momento, está a fazer um esforço para responder aos desafios, para reforçar o seu poder geoeconómico e geopolítico. Está a fazer, como eu já referi, avançando num mercado único de capitais e quem está à frente deste projeto é uma portuguesa: Maria Luís Albuquerque. Está a fazer, também, reforçando as relações, os acordos comerciais, com vários países no mundo e apostando na inovação… mais inovação.

Sabe, a União Europeia tem gente muito capaz em matéria de investigação, mas tem grande dificuldade em passar a investigação para o mercado. Depois, ligando aliás com o Relatório Draghi, há uma grande fragmentação das indústrias europeias e, portanto, há um problema de escala.

Cavaco Silva, com a mulher, homenageado por ocasião dos 40 anos da tomada de posse do seu governo. Foto: António Pedro Santos/Lusa
Cavaco Silva, com a mulher, homenageado por ocasião dos 40 anos da tomada de posse do seu governo. Foto: António Pedro Santos/Lusa

É isso que lhe pergunto, recorrendo ao Relatório Draghi que já citou: Não é possível fortalecer a competitividade europeia sem ganhar escala, presumo, sem decisões mais centralizadas e anunciadas a uma só voz, o que nem sempre acontece na União Europeia e no seu tempo também já era assim. A solução poderá passar por um federalismo? Sei que nunca foi um fã do federalismo, mas poderia ser um bom caminho?

Eu acho que é melhor deixar essa ideia do federalismo. Existe um verdadeiro federalismo monetário com um Banco Central Europeu, com uma política monetária única, uma política cambial única, uma política de supervisão e uma moeda única.

Aí, a Europa entrou nos domínios daquilo que se chama “património do Estado”: a moeda, o orçamento, o câmbio, tudo isso. Eu sou um defensor da União Europeia e da União Monetária e, portanto, da Zona do Euro.

O Relatório do Draghi é de 2024. É um relatório muito importante que identificou as razões desta discrepância de crescimento económico e de produtividade da Europa em relação aos Estados Unidos e em relação à China, e propôs soluções. E um dos problemas que menciona é a dimensão das empresas europeias, muito aquém das empresas norte-americanas e as empresas chinesas e, portanto, sem ganhos de escala. Ele menciona mesmo que, nas 50 maiores empresas do mundo há apenas quatro empresas europeias.

Por exemplo, no domínio das telecomunicações há dezenas de empresas na Europa. Eu penso que em Portugal existem algumas quatro. Nos Estados Unidos e na China é um número muito reduzido. Portanto, a escala é muito importante.

Depois, ele sublinha a importância da coordenação das políticas económicas entre os Estados-membros, tem de haver mais coordenação. E, de seguida, elabora no problema da Defesa. A Europa tem de investir mais na Defesa, tem de investir mais na Defesa, reduzir substancialmente a dependência dos Estados Unidos em matéria de defesa e segurança.

Não é apenas fazer dentro da União Europeia um pilar da NATO, mas uma força, uma identidade europeia de defesa separada mesmo da NATO, mas em cooperação com a NATO, para poder intervir em situações em que os Estados Unidos não têm interesse.

Embora eu considere que [a Europa] não pode desligar facilmente os Estados Unidos, porque leva muito tempo a construir uma força de defesa credível dentro da Europa, e há uma diferença importante, difícil de corrigir, que é a dissuasão nuclear. Os Estados Unidos têm uma força nuclear, tal como a Rússia, e a Europa não tem capacidade de dissuasão nuclear.

De qualquer forma, a Europa está agora voltada, parece que com alguma vontade, principalmente por parte da Comissão e da Sra. Von der Leyen, em responder a estes desafios. Portanto, eu acho que é preciso que avance.

O Relatório Draghi dá um impulso chamando a atenção dos países que é a altura de tentar corrigir os atrasos acumulados ao longo do tempo em matéria de produtividade e em matéria tecnológica. Mas também diz que é preciso apostar muito na inovação e aponta um número assustador do investimento adicional que é necessário fazer na Europa: 800 mil milhões de euros, anualmente. Isso só pode ser conseguido através da emissão de dívida europeia.

Já há precedentes, apesar de tudo…

Sabe que tem sido muito difícil convencer os Estados-membros a aceitar a emissão de dívida europeia. Foi conseguido com a covid-19 e foi muito importante. Eu penso que tem de acontecer o mesmo para apoiar os países no reforço das despesas em defesa e segurança.

Eu acho que há, neste momento, uma consciência muito mais forte dentro da União Europeia de que é a altura de avançar nas reformas que são essenciais para garantir mais crescimento económico e mais desenvolvimento tecnológico…é que, sabe, mais produtividade significa mais poder.

A propósito do aumento necessário da competitividade, defendido pelo Relatório de Draghi, alguns líderes europeus já disseram: “vamos avançar de qualquer forma. Quem quiser juntar-se, junta-se, quem não quiser…” admitindo, no fundo, uma expressão que o Sr. Professor utilizou noutros tempos: “Europa a duas velocidades”. Há agora esse risco?

Ele próprio escreveu… Draghi escreveu: “se não for possível avançar a 27, então se avança pela coordenação de políticas num número menor à totalidade daqueles que constituem a União Europeia”.

Mas isso será a tal “Europa a duas velocidades”…

Atualmente isso é possível, nos termos da legislação europeia.

Mas eu recordo-me que o Sr. Professor, nos anos 80 e 90 (do século passado), se bateu muito para que Portugal garantisse um lugar na carruagem da frente. E a verdade é que fazemos parte da Zona Euro desde o início. É vital que agora Portugal também entre na primeira carruagem?

Eu considero que a adesão de Portugal à União Europeia foi muito positiva para o nível de desenvolvimento e de bem-estar da população portuguesa. Os portugueses têm milhares de razões para se congratularem com a adesão de Portugal à União Europeia e à Zona Euro. Imagine só aquilo que seria a situação económica e sanitária em Portugal, no tempo da covid-19, sem o apoio do Banco Central Europeu e o apoio da União Europeia. Mas, como sabe, nós cometemos alguns erros que não podem ser cometidos por um país da Zona Euro.

Já lá iria. Mas está-me a dizer que podemos ter de entrar agora, no capítulo da competitividade, numa segunda carruagem?

Não. Portugal deve atuar no quadro da União Europeia em todas aquelas direções que sejam fundamentais para o aumento do crescimento económico do conjunto, para o desenvolvimento tecnológico e para o aumento do poder a nível geopolítico. Portugal, a sua política não pode ser conduzida independentemente dos novos desafios que a União Europeia enfrenta e que está a tentar resolver. Mas, como disse, surgem às vezes muitas dificuldades no Conselho. Não dentro da Comissão, no Conselho.

Falava há pouco de erros que Portugal cometeu neste caminho, e também já vai longa a participação de Portugal na União Europeia. Ainda somos bons alunos? Eu pergunto isto porque fomos ultrapassados na produtividade, no desempenho económico, creio eu, por todos os países do Leste, que entraram na União Europeia depois de nós. Há solução?

Portugal foi ultrapassado no seu crescimento económico, no seu rendimento “per capita”, por vários países que aderiram à União Europeia 20 anos depois do Portugal. E é por isso que eu digo – e é bom que os portugueses estejam conscientes disso – que somos um país relativamente pobre, porque em matéria de rendimento “per capita” em paridade do poder de compra, nós estamos abaixo da média europeia e abaixo de alguns países que entraram na União Europeia 20 anos depois de nós.

Duas razões: Primeiro os erros que cometemos, e que implicaram uma troika instalada em Portugal, um programa de assistência económica e financeira no ano 2011, na sequência de erros que cometemos e que um país da Zona Euro não pode cometer.

Em segundo lugar, porque o crescimento económico do país e o crescimento da produtividade neste século XXI, em Portugal, têm sido bastante fracos e outros países têm nos ultrapassado.

Recentemente eu escrevi um artigo sobre essa questão: O dinheiro do Estado não cai do céu. O dinheiro do Estado é dinheiro dos impostos pagos pelos contribuintes. E [nesse artigo] eu lembrei, na sequência de muitos outros textos que tenho vindo a publicar, que sem um conjunto de reformas fundamentais que são decisivas para um crescimento económico mais forte, da ordem dos 3% a 4% ao ano, Portugal não conseguirá aproximar-se dos níveis de desenvolvimento económico e social dos países mais ricos.

E eu não quero voltar a essa questão, porque escrevi há pouco tempo um ensaio sobre essa matéria, mas sem isso é uma ilusão pensar que Portugal tem os recursos financeiros para satisfazer as reivindicações das pessoas e das empresas, seja na saúde, seja na segurança social, seja no apoio às empresas, seja nos mais variados domínios em que se justifica a intervenção. Não temos recursos financeiros. É preciso mais crescimento económico para que o sistema fiscal possa gerar mais recursos financeiros para poder responder às aspirações das pessoas, das empresas e das instituições. Mas sobre essa matéria…

Não quer dizer, sequer, se há sinais?

Não quero acrescentar mais nada.

E em relação ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que vem um pouco a propósito? É uma oportunidade única. Teme que se possa ir por mau caminho?

É uma matéria que está neste momento a ser implementada pelo Governo, espero que as coisas corram bem. Portugal tem beneficiado muito da política de coesão económica e social.

Sabe, no conjunto da União Europeia, os benefícios atingem a totalidade, o conjunto, mas não se distribuem igualmente, e justamente, por todos os países. Há diferença entre os países nas formas de gerir as economias, nas infraestruturas básicas, no substrato de uma Alemanha versus Portugal… e tudo isso. E, portanto, é preciso uma política de coesão económica e social, que a Sra. Thatcher não gostava nada. E Portugal foi um defensor, juntamente com a Espanha, da política de coesão económica e social. É que, além de interesses comuns e de valores comuns… não se esqueça que a União Europeia ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2012.

Portanto, um dos valores é a paz, a democracia, a liberdade, o respeito pelos direitos humanos. E, portanto, Portugal quer defender os seus próprios interesses, mas tem sempre tido a habilidade, felizmente, de se colocar no quadro do interesse comunitário e não numa ótica nacionalista nem egoísta. Isso é fundamental.

Há países, principalmente alguns países do Leste, que colocam em primeiro lugar – e tenho uma dificuldade em compreender, porque foram muito apoiados no início – os seus interesses nacionalistas e egoístas. Portugal tem sido inteligente nessa matéria e continua. Já recebemos muitos fundos ao longo do tempo, e a adesão à União Europeia foi fundamental para as múltiplas reformas estruturais que Portugal teve de fazer para conseguir integrar-se.

Jacques Delors disse, no bom sentido, “Portugal foi um bom aluno”. O que é que ele queria significar? É que, ao tempo da adesão, dizia-se “Portugal vai ser outra Grécia”. E Portugal surpreendeu a União Europeia. Portugal ganhou rapidamente credibilidade. Foi um parceiro construtivo, um parceiro sério, fiável e nunca esquecendo o interesse comunitário.

E ele [Jacques Delors] tem uma frase que eu nunca esquecerei. O Delors, uma vez, escreveu o seguinte: Portugal comportou-se da União Europeia como se tivesse sido um membro fundador da União.

Gostava que me falasse sobre o alargamento da União Europeia. Pergunto-lhe se vê com bons olhos a possível adesão da Ucrânia à União Europeia, se faz sentido? E, por outro lado, o Reino Unido. Os ventos do Brexit já lá vão há bastante tempo. Há sinais, aliás, em sentido contrário. Seria positivo um regresso do Reino Unido à família europeia?

Eu acho que foi um erro grave da parte do Reino Unido, do primeiro-ministro de então, fazer o referendo que fez, em que o voto da geração mais velha se sobrepôs ao voto dos mais jovens. E esses mais jovens, que queriam que o Reino Unido continuasse na União Europeia, estão agora a atingir uma idade mais avançada, a reconhecer o erro que foi cometido e a dizer que o melhor era regressar.

Não é fácil, mas saída da Grã-Bretanha – que foi fácil, ou mais fácil, porque não fazia parte da Zona do Euro – foi uma lição para outros países. Lembra-se de quando foi a crise da Grécia, muito grave? O Sr. Tsipras, de um partido da extrema-esquerda, fez um referendo, que ganhou, mas depois ele não saiu da Zona Euro.

E quando lhe perguntaram: “Então o Sr. primeiro-ministro ganhou o referendo contra a União Europeia e não sai”? Sabe qual foi a resposta dele numa entrevista que deu um jornal britânico? “Sair da zona Euro? E qual é a galáxia para onde eu vou viver?”

E quanto à Ucrânia?

Repare, neste momento está em causa o alargamento da União Europeia aos Balcãs Ocidentais. E a Ucrânia, não deve ser excluída da possibilidade de alargamento. Mas os novos membros têm de cumprir os chamados critérios que foram aprovados quando eu ainda era primeiro-ministro, os critérios de Copenhaga.

Eles próprios têm de demonstrar que estão preparados para integrar a União Europeia. Há alguns [países] que estão neste momento avançados, dos Balcãs Ocidentais. E a Ucrânia deve ser colocada nas mesmas condições. Tem de cumprir os critérios de Copenhaga e tem de demonstrar que está em condições de integrar a União Europeia.

Cavaco Silva e Antonio Costa no 30.º aniversário da adesão à CEE. Foto: Lusa
Cavaco Silva e Antonio Costa no 30.º aniversário da adesão à CEE. Foto: Lusa

Referiu-se, por diversas vezes nesta entrevista, ao papel da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mas nunca, referiu até agora, o nome António Costa, que é o presidente do Conselho Europeu. Disse, aliás, que o Conselho tem mais dificuldade em tomar decisões. A verdade é que já houve dois portugueses ocupar cargos de alto relevo na União Europeia. Primeiro foi Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia, precisamente. E agora António Costa é presidente do Conselho Europeu. Tem sido uma mais-valia?

Alguns portugueses têm sido considerados, pela sua competência técnica e política, adequados para desempenhar elevados cargos internacionais. É o caso do Durão Barroso, dois mandatos como presidente da Comissão Europeia, tal como Jacques Delors. É o caso do Dr. António Costa, presidente do Conselho Europeu. Rui Vilar foi o primeiro diretor-geral português da União Europeia. Fora da União Europeia, António Guterres, Jorge Moreira da Silva, também nas Nações Unidas…

Mas, relativamente à União Europeia nunca referiu propriamente António Costa, até este momento. O Conselho Europeu tem menos peso?

O poder de iniciativa pertence à Comissão Europeia, mas a decisão de aprovar ou não aprovar as medidas é do Conselho Europeu. Eu costumo dizer que é no Conselho que muitas medidas são adiadas e algumas vezes demasiado adiadas. Ele [António Costa] faz o possível porque é apenas um coordenador das regiões. Ora, essas personalidades com lugares de destaque internacionais, aumentam a credibilidade de Portugal. Não quer dizer que eles estejam lá para defender os interesses de Portugal, é errado. Estão a desempenhar um cargo internacional, mas credibiliza o nosso país.

Pensamos que somos um país médio, e às vezes somos apontados como um país médio e, afinal, ocupamos tantos lugares importantes a nível internacional. Só podemos aplaudir o facto de termos esse grupo de portugueses destacados a nível internacional porque eu não digo que seja uma mais-valia em termos de materiais, mas em termos de prestígio do país é de certeza uma mais-valia.

Fonte: www.rr.pt

Crédito da imagem: Ricardo Fortunato / Renascença