Em frente ao memorial improvisado junto às portas 23 e 24 do Estádio do Dragão, uma mulher baixa-se, toca o rosto de Pinto da Costa num poster de jornal ali depositado e entrega-lhe um beijo, com um pedido. “Toma conta do meu menino”, roga-lhe, com olhos marejados de lágrimas. Encostado à grade que delimita o espaço, Júlio Pereira assiste e interroga-se em voz alta: “Quem vai cuidar do nosso FC Porto agora?”.
A resposta surge de pronto, logo ao lado, por Mário Costa, “portista há 76 anos pela graça de Deus”: “Vai ser ele. Vai ser o nosso santo padroeiro. A cidade já tem o São João, mas o Pinto da Costa vai ser o padroeiro do clube”.
Como o próprio pedira que acontecesse no seu funeral, a nação portista vestiu-se de azul (maioritariamente) e negro e acordou cedo para se despedir do “Presidente dos Presidentes”, inscrição repetida em vários locais do estádio. Ainda antes de a atual direção – liderada por André Villas-Boas, o antigo treinador que pôs fim ao mais longo e bem sucedido reinado de um presidente do futebol mundial -, ter anunciado o inevitável acordo para que o corpo do histórico dirigente passasse uma última vez pelo interior do Dragão, a romaria de “tristeza e gratidão”, como resumia outro adepto, fez-se entre o memorial junto ao estádio e a Igreja das Antas, onde foi rezada a missa pelo cardeal Américo Aguiar, amigo próximo e de longa data.
O vai e vem de adeptos ao longo da Alameda das Antas prolongou-se por toda a manhã, entre um espaço e outro, para a homenagem ao “homem sem medo”, que “fez do FC Porto um gigante mundial, contra os invejosos da capital”, destaca o senhor Aurélio, enquanto espera num dos passeios da Alameda pela passagem do cortejo fúnebre. Portista “desde o tempo dos andrades”, quando “ainda era proibido ganhar para lá da ponte da Arrábida”, sublinha o quanto “tudo mudou” com Pinto da Costa, “ainda nos tempos de diretor do futebol, antes de subir a presidente”.
“Sabe…” – anuncia pausadamente, com a nostalgia a medir as palavras – “…com o Pinto da Costa veio a paixão”. “A gente já gostava do clube, mas a paixão dele guiou-nos a todos”, continua, para descrever aquele que, diz, “foi o homem que criou o verdadeiro FC Porto”. “Com ele, nos seus tempos áureos, nem precisávamos de saber que jogadores ou treinadores tínhamos porque sabíamos que entrávamos sempre para ganhar, fosse contra quem fosse, contra tudo e contra todos”.
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Ao lado, com um cachecol da final de Gelsenkirchen (que valeu o segundo título europeu ao FC Porto de Pinto da Costa, em 2004) ao pescoço, Paulo Nogueira diz que “é isto que os rivais de Lisboa não perdoam”, abanando o adereço. “Custa-lhes a engolir as vitórias que ele nos deu, até na hora da sua morte”, refere, num remoque ao silêncio de Benfica e Sporting, que não apresentaram condolências pela morte de Pinto da Costa.
Foi esse legado de um FC Porto vencedor que milhares de portistas tiveram “obrigação de homenagear” esta segunda-feira, no dia em que o presidente histórico se tornou “saudade”, nota a Dona Rosa, uma vendedora “de outros tempos” nas imediações das Antas em dia de jogo, também ela beneficiária desse FC Porto de êxitos criado pelo presidente de quem veio despedir-se. “Transformou a vida de muita gente, de uma cidade e de uma região. Para muitos de nós, infelizmente, a única alegria que tínhamos na semana era essa, ver o FC Porto ganhar”, diz, enquanto observa as várias dedicatórias deixadas pelos muitos adeptos anónimos no exterior do estádio. No memorial improvisado estão desfiladas centenas de cachecóis, dos mais antigos aos mais recentes, há bandeiras, peluches, flores, velas, muitas, e até cartas endereçadas ao presidente desaparecido.
Mesmo que a popularidade de Pinto da Costa entre a nação portista tenha sido beliscada nos últimos tempos, obrigando-o a deixar a cadeira do poder ao fim de 42 anos, ainda em vida, em abril passado, a ligação sentimental permanece inatacável. Há adeptos a chorar, outros a rezar, mas todos a “celebrar um presidente único”. “Quantos anos o clube tenha, não haverá outro igual”, vaticina Mário Costa, que enaltece uma particular faceta de Pinto da Costa “assumida logo na sua tomada de posse”, em abril de 1982, recorda. “Já aí ele disse que era o presidente da arraia-miúda. E foi. O presidente do povo”.

Povo esse que não faltou a este último momento com o presidente dos 15.344 dias e 2.585 troféus. De crianças e jovens que “não foram à escola”, como assumia uma mãe equipada a rigor com o número 2 nas costas, a adultos que roubaram “umas horas” ao emprego, reformados e, claro, os fiéis Super Dragões que escoltaram Pinto da Costa até ao fim.
Até intrusos benfiquistas se confessavam entre a multidão que circundava a Igreja das Antas, como a mulher que arriscou um “Benfica!” no meio dos adeptos que invadiram o McDonald’s vizinho, de onde tinham vista desimpedida sobre a entrada lateral para a igreja. “Não é provocação nenhuma. Sou benfiquista, mas gostava do Pinto da Costa”, justifica-se de imediato.
Lá dentro, decorria a missa fúnebre, à qual não faltaram o primeiro-ministro Luís Montenegro, o ex-Presidente da República Ramalho Eanes ou até um representante do Real Madrid, além de antigos jogadores e diversas personalidades da sociedade civil portuense – provando que, para lá da “arraia-miúda”, também as elites se renderam ao legado de Pinto da Costa, que o primeiro-ministro destacou como “presidente icónico do desporto português”.

Entretanto, o FC Porto anunciava a notícia aguardada por todos: a urna de Pinto da Costa iria despedir-se do Estádio do Dragão, onde desaguou então a romaria de milhares de adeptos para o último momento de apoteose proporcionado pelo dirigente histórico no recinto que ele inaugurou em 2003.
“Não fazia sentido de outra forma”, desabafa Júlio, com um desejo: “Espero que agora deem o nome dele ao estádio.” A ideia, no entanto, não é consensual. “Ele próprio não queria, disse-o em vida. Sempre disse que o FC Porto é maior do que qualquer pessoa, inclusive ele próprio”, reage Mário. “O importante é que ele olhe por nós. Já viste como até o céu ficou mais azul?”
