O novo selecionador foi apresentado na sexta-feira (10) e avisou que substituiu Cristiano Ronaldo no Al-Nassr 16 vezes, garantiu ter uma saúde de ferro aos 71 anos e lamentou que Portugal não tenha garantido o 1º lugar do grupo no Mundial. A seleção vai jogar o dobro? Sim, “senão fica tudo igual”.
Poucos minutos depois das 15h, e a seguir a Pedro Proença dizer as primeiras palavras sobre a nova era da seleção nacional cujo lema é “viemos para vencer”, Jorge Jesus colocou-se diante de um solitário microfone e da baba dos holofotes.
Trajado com um elegante fato e gravata negros, o selecionador que assinou até 2030 explicou ao que veio.
Não defraudou as expectativas, são já tradicionais as pérolas sem fim que lhe saltam da garganta, sedentas de conhecer a luz do dia e as páginas dos jornais e os programas de rádio.
Sem surpresa, foi lembrado de uma certa e determinada declaração aquando da chegada ao Benfica, em 2009: a seleção vai jogar o dobro? “Tem de jogar o dobro, se não jogar o dobro fica tudo igual. Porque a qualidade está cá.”
E garantiu: “A minha ideia de jogo não tem nada a ver com o que era a seleção portuguesa. Nada. Zero”. Só no fim da apresentação como novo selecionador chegou a explicação tática sobre o que quer do jogo, da sua equipa. “Não sou um treinador que goste de jogar com três médios, num 4-3-3. Gosto de jogar com médios com mais andamento, mais dinâmica.”
Sem complexos e rodeios, falou da relação com Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva, revelou que um dia disse a Neymar “tu, finish” e ainda explicou o orgulho que sente por chegar à sua seleção portuguesa, negando que tenha falado com Pepe para adjunto.
Sobre o Mundial, defendeu: “Era importantíssimo o primeiro lugar do grupo. Não é o mesmo jogar com a Espanha ou com a Suíça”.
Depois da lengalenga inicial habitual, num formalismo pouco habitual em Jorge Jesus, lá se disponibilizou para as perguntas, para “soltar a língua”. Antes, aclarou: “Viemos para vencer, estamos convencidos de que chegamos a qualquer lado e vencemos”.

“Substituí-o 16 vezes no ano passado”. O que disse Jesus sobre Ronaldo?
Logo a começar, mostrou o seu lado cruijffista. “Temos uma seleção para poder acreditar. Para valorizar o espetáculo, valorizar jogadores e a seleção. Tenho um grande orgulho em poder ter esta oportunidade”, disse, mostrando a faceta mais humilde. Afinal, é “uma das melhores seleções do mundo e principalmente a do meu país”. Disse isto certamente com a recusa da seleção brasileira em mente.
Assumiu que gostou da ligação dos portugueses com a seleção durante o Campeonato do Mundo nas Américas, só não apreciou o lado desportivo. “Senão não estava aqui”, admitiu. Portugal caiu nos oitavos de final do Mundial, contra a Espanha, e Roberto Martínez abandonou o cargo de selecionador.
Para o novo selecionador nacional, trabalhar num clube ou numa seleção não é assim tão diferente. Há menos dias de trabalho, é certo, mas “o método de cada um não é uma ciência exata, mas é uma ciência de cada um”, disse naquele seu jeito. “Vou-me adaptando às circunstâncias, preparei-me para este dia.”
Para Jesus, é um gosto assumir a responsabilidade, garantiu. “Estou habituado a essa pressão. Estamos preparados para traçar o nosso caminho.” E lá foi lembrando que tem jogadores para tal.
A idade foi tema de conversa. São já 71 anos e quase 40 de carreira como treinador, depois de ter sido futebolista. O cidadão da Amadora revelou que tem uma saúde invejável, que se sente com 50. “Todos os dias posso treinar uma, duas horas. Estou preparado para um desafio difícil, convencido de que vamos vencer.”
Não chegou tão cedo, mas chegou, a pergunta sobre Cristiano Ronaldo. Interessa sempre saber de que estatuto gozará com Jorge Jesus, ainda por cima ex-treinador do capitão no Al-Nassr. Os dois ainda não falaram, revelou o treinador lisboeta. “O Cris nunca vai ser um problema para a seleção, nem para a seleção nem para mim”, esclareceu.
E continuou: “Quando tiver de tomar alguma decisão, vou falar com ele. Com ele e com todos, individualmente. O Cris é um símbolo do futebol português, da seleção, de Portugal. Vai ficar sempre na história, tive um grande prazer em trabalhar com ele. É fácil trabalhar com ele, facílimo. (…) A partir do momento que esteja a jogar e que tenha condições para ser selecionável, eu farei o melhor para a seleção.”
Depois, num estilo um pouco Mourinho embora sem papel, sacou da cartola dos números: em 50 jogos no Al-Nassr, Cristiano disputou 31. “No campeonato, substituí-o 16 vezes”, alertou como quem anuncia a coragem de negar a imortalidade ao semideus do nosso futebol. “Nunca confundimos o que era ele, jogador, e eu, treinador, e as decisões que tenho de tomar.”
Questionado diretamente se haverá espaço para Rodrigo Mora e Geovany Quenda, do FC Porto e agora Chelsea, Jesus deu a entender que sim, pois necessariamente vão aparecer jogadores jovens nestes quatro anos, mas lembrou que a média da equipa do Mundial era 28 anos e que apenas seis jogadores estão acima dos 30 anos, sendo que dois deles eram guarda-redes. Por isso, nega a necessidade de revolução.
E voltou ao tema do pedigree do futebolista de elite. “Ego há em todas as equipas, em todas as seleções. É muito mais difícil trabalhar com jogadores que julgam que são grandes jogadores do que com aqueles que são grandes jogadores.”
Como Bernardo Silva faz parte do grupo de capitães, a pergunta sobre a polémica antiga sobre a escolha ou não do jogador para lateral-esquerdo numa pré-época e sobretudo sobre a não aposta no jogador, era irresistível.
“Era um menino que estava a começar”, desvalorizou. “Notava-se que confiava muito nele e que queria jogar e ser jogador. (…) Agora é um jogador formado, com nível mundial. E o Pep também o meteu lá [na posição referida]. Já falei com ele, já estivemos umas vezes. Difícil é trabalhar com jogadores que julgam que são jogadores. Com grandes é fácil…”, repetiu.

Quando o assessor pediu para ser feita a derradeira ronda de perguntas, até pelo cansaço que poderia beliscar o selecionador, Jesus disse que podia ficar ali até amanhã, ganhando alguns risos da plateia.
Uma parte curiosa da conferência de imprensa prendeu-se com a referência de Jesus aos “três melhores jogadores do mundo”.
Lamentou não ter treinado Lionel Messi, mas salientou que treinou Cristiano Ronaldo e Neymar, ambos na Arábia Saudita. “Ao Neymar, eu disse ‘tu, finish’”, declarou, surpreendendo, até pelo potencial de repercussão que esta declaração terá no outro lado do oceano.
O mandato de Jorge Jesus na seleção nacional arranca no dia 24 de setembro, contra o País de Gales, em Alvalade, num encontro a contar para a Liga das Nações. Depois, seguem-se deslocações à Noruega e à Dinamarca, a 27 de setembro e 1 de outubro.
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