Investimento imobiliário português deverá captar 2,4 mil milhões em 2026

Após um ciclo de recuperação expressiva, o mercado nacional prepara-se para uma nova fase: menos exuberante, mas mais sólida.

Segundo o Portugal Real Estate Outlook 2026, apresentado pela CBRE, o país deverá captar cerca de 2,4 mil milhões de euros em investimento em 2026, um ligeiro abrandamento face aos 2,7 mil milhões registados em 2025, refletindo sobretudo a normalização da atividade num contexto europeu marcado pela volatilidade.

Portugal passa a assumir um perfil defensivo, maduro e resiliente, ancorado em fundam

entos macroeconómicos estáveis, consolidação orçamental e prémios de retorno competitivos. O volume de investimento de 2025, que cresceu 17% em termos homólogos, confirma a atratividade do país. Para 2026, a CBRE não antecipa compressões significativas nas taxas de retorno, mantendo aberta uma janela de oportunidade para investidores que privilegiam previsibilidade.

Embora o capital estrangeiro continue dominante, representando cerca de 60% do volume investido, os investidores nacionais estão a ganhar peso, impulsionados pela transferência de poupanças de depósitos a prazo para fundos de investimento.

José Maria Moutinho, head of research da CBRE Portugal, afirma que, enquanto outras economias europeias enfrentam desafios de endividamento, Portugal segue uma trajetória de estabilidade e retornos atrativos. Igor Borrego, head of capital markets, acrescenta que não se antecipam compressões relevantes nos retornos em 2026.

Em Lisboa, observa-se uma mudança clara na procura por escritórios. Pela primeira vez, a renda mais elevada deixou de estar associada ao centro tradicional e passou para a zona histórica e ribeirinha, refletindo a procura por edifícios reabilitados, sustentáveis e preparados para novos modelos de trabalho.

Para 2026, prevê-se uma absorção de cerca de 200 mil metros quadrados em Lisboa, e 50 mil metros quadrados no Porto. A entrada de produto de maior qualidade e a expansão para novas centralidades continuam a pressionar as rendas em alta. André Almada, offices leasing senior director da CBRE Portugal, sublinha que as empresas não estão a reduzir áreas devido ao teletrabalho, mas sim a procurar melhores condições, mesmo que isso implique custos mais elevados.

A logística mantém-se como um setor estratégico, impulsionado pela reconfiguração das cadeias globais e pela instabilidade em rotas internacionais. Portugal beneficia de uma posição atlântica privilegiada, mas enfrenta uma escassez estrutural de oferta. A taxa de disponibilidade é inferior a 1% no Grande Porto e ronda 3% na Grande Lisboa.

O take-up previsto para 2026 deverá situar-se entre 380 mil e 400 mil metros quadrados. Mais de 85% dos projetos lançados de forma especulativa nos últimos anos foram arrendados antes de terminarem. Nuno Torcato, industrial & logistics leasing director da CBRE Portugal, destaca que Portugal está em contraciclo com a Europa, onde a oferta aumenta, enquanto aqui a escassez define o mercado.

O retalho continua a mostrar força, impulsionado pelo turismo e pelo consumo interno. Em 2025, as vendas cresceram 43% face a 2019. Descontando a inflação acumulada de 19% desde 2019, o crescimento real mantém-se elevado.

As rendas mais valorizadas nas principais ruas comerciais, como a Rua Garrett no Chiado, poderão atingir 150 a 155 euros por metro quadrado em 2026. Os retail parks afirmam-se como o formato com maior expansão em todo o país. Carlos Récio, head of retail da CBRE Portugal, sublinha que os fundamentos do setor nunca estiveram tão fortes e que a procura continua a superar a oferta.

No setor do turismo, mantém-se uma trajetória de crescimento qualificado, com investimentos focados nos segmentos de luxo e upscale, destinados a atrair turistas de maior valor, sobr

O agribusiness, com destaque para a região do Alqueva, começa a atrair investimento institucional, enquanto os data centers beneficiam da combinação entre conectividade, energias renováveis e localização estratégica. Manuel Valadas Albuquerque, head of agribusiness southern Europe da CBRE Iberia and Italy, conclui que Portugal se está a afirmar em nichos de alto valor.

Num contexto internacional marcado por incerteza geopolítica e ajustamentos económicos, o país demonstra capacidade para transformar volatilidade externa em vantagem competitiva.

A aposta na qualidade, na sustentabilidade e na diversificação setorial consolida um mercado mais profundo, resiliente e orientado para o longo prazo. Menos euforia, mais solidez: Portugal confirma-se como porto seguro do capital europeu.

Fonte e crédito da imagem: O Jornal Económico / Portugal