Europa “não é uma verdadeira força política”: Zelensky avisa líderes da UE para irrelevância mundial

“Não se pode construir uma nova ordem mundial só com palavras — só as ações criam verdadeira ordem”. Volodymyr Zelensky lamentou esta quarta-feira (21) que a União Europeia “não é uma verdadeira força política”, utilizando o discurso em Davos, no Fórum Económico Mundial, para alertar os líderes europeus do “belo, mas fragmentado, caleidoscópio de pequenos e médios poderes” que representam.

“Na Europa, há intermináveis discussões internas, e coisas deixadas por dizer, que impedem a Europa de se unir e falar de forma honesta o suficiente para encontrar soluções reais”, diagnosticou o Presidente da Ucrânia. “E, demasiadas vezes, os europeus viram-se uns contra os outros, líderes, partidos, movimentos e comunidades, em vez de ficarem juntos para parar a Rússia”.

“Em vez de se tornar numa verdadeira potência global, a Europa permanece um belo, mas fragmentado, caleidoscópio de pequenos e médios poderes”, analisou Zelensky, criticando que “em vez de assumir a liderança na defesa da liberdade mundial, especialmente quando o foco da América se muda para outro lado, a Europa parece perdida a tentar convencer o Presidente dos Estados Unidos a mudar”.

“Mas ele não vai mudar. O Presidente Trump ama quem ele é. E ele diz que ama a Europa, mas ele não vai ouvir este tipo de Europa”, apontou o ucraniano, estabelecendo a “mentalidade” dos líderes europeus como “um dos maiores problemas na Europa de hoje”.

“Alguns líderes europeus são da Europa, mas não sempre pela Europa. E a Europa ainda parece mais uma geografia, história, uma tradição, não uma verdadeira força política, não uma grande potência”, alertou. “Alguns europeus são muito fortes, é verdade, mas muitos dizem que devemos ser firmes, e querem sempre que outra pessoa lhes diga quanto tempo precisam de ser firmes, de preferência até à próxima eleição”.

“Todos dizem, precisamos de alguma coisa para substituir a velha ordem mundial. Mas onde está a fila de líderes que estão prontos a agir? Ajam agora em terra, no ar, no mar, para construir uma nova ordem global”, implorou Volodymyr Zelensky, antes de lançar mais um aviso. “Não se pode construir uma nova ordem mundial só com palavras. Só as ações criam verdadeira ordem”.

O ucraniano sublinhou logo no início do discurso que se sentia obrigado a “dizer as mesmas palavras” do discurso de 2025. “No ano passado, aqui em Davos, terminei o meu discurso com as palavras ‘a Europa precisa de saber como defender-se’. Um ano passou, e nada mudou”.

“A Europa baseia-se apenas na crença que se o perigo aparecer, a NATO vai agir. Mas ninguém tem visto realmente a aliança em ação”, constatou Zelensky. “Se Putin decidir tomar a Lituânia ou atacar a Polónia, que vai responder? Atualmente, a NATO existe graças à crença que os Estados Unidos vão agir, que não vão ficar de lado e vão ajudar. Mas e se não o fizerem?”.

“Esta questão está em todo o lado, nas mentes de todos os líderes europeus, e alguns tentam aproximar-se do Presidente Trump. Alguns esperam, com esperança que o problema desapareça”, frisou o chefe de Estado ucraniano. “A Europa precisa de saber como se defender. E se enviarem 40 soldados para a Gronelândia, de que serve? Que mensagem envia? Qual é a mensagem para Putin, para a China? E ainda mais importante, que mensagem envia à Dinamarca?”.

“Ou declaram que as bases europeias vão proteger a região da Rússia e China e estabelecem essas bases, ou arriscam não ser levados a sério, porque 40 soldados não vão proteger nada”, advertiu Zelensky, oferecendo depois ajuda da Ucrânia para proteger a Gronelândia de navios de guerra russos.

“Talvez algum dia alguém faça alguma coisa”

Volodymyr Zelensky criticou também a inação europeia sobre vários temas, começando sobre a falta de posição comum sobre a ideia do Conselho de Paz dirigido por Donald Trump.

“A Europa nem sequer formou uma posição unida sobre a ideia americana. Talvez hoje, quando o Conselho Europeu reunir, eles decidam alguma coisa. Mas os documentos já foram assinados esta manhã, e esta noite também podem finalmente decidir alguma coisa sobre a Gronelândia”, comentou Zelensky, ironizando de seguida com a reunião entre Mark Rutte, secretário-geral da NATO, e Trump.

“Obrigado, Mark, pela tua produtividade. A América já está a mudar a sua posição, mas ninguém sabe exatamente como. As coisas mexem-se mais rápido do que nós. As coisas mexem-se mais rápido que a Europa. E como pode a Europa acompanhar?”, indagou o ucraniano, aconselhando que os europeus “não se devem degradar a papéis secundários”, nem aceitar “que a Europa é apenas uma salada de pequenos e médios poderes temperada com os inimigos da Europa quando, unidos, somos verdadeiramente invencíveis”.

“Quanto ao Irão, toda a gente está à espera para ver o que a América vai fazer. E o mundo não dá nada, a Europa não dá nada, e não quer entrar nesta questão em apoio do povo iraniano e da democracia de que precisam”, expôs Zelensky. “A Bielorrússia em 2020 é um exemplo. Ninguém ajudou o povo e agora os mísseis russos “Oreshnik” [balísticos, com capacidade nuclear] estão implantados na Bielorrússia, ao alcance da maioria das capitais europeias. Isso não teria acontecido se o povo bielorrusso tivesse vencido em 2020″.

“A Europa ainda permanece em modo Gronelândia. Talvez algum dia alguém faça alguma coisa”, observou o Presidente da Ucrânia, apontando também o tema do petróleo russo e como “as forças a tentar destruir a Europa” operam “livremente, até operam dentro da Europa”.

“Qualquer Viktor [Orbán] que vive à custa do dinheiro europeu enquanto tenta vender os interesses da Europa merece uma chapada na cabeça. E se ele se sente confortável em Moscovo, não significa que devemos deixar as capitais europeias transformar-se em pequenas Moscovos”, pediu. “Devemos lembrar-nos o que separa a Rússia de todos nós”.

Fonte: www.rr.pt

Crédito da imagem: Gian Ehrenzeller / EPA