Um estudo levado a cabo por uma equipa do ISCSP analisou a situação em quatro regiões do país. Reconhece um esforço de investimento em equipamentos culturais nas últimas décadas, mas diz que isso não traduz num maior acesso à oferta cultural. Persistem as barreiras socioeconómicas, mas há outras assimetrias.
Se é verdade que nas últimas décadas houve um grande investimento em novos equipamentos culturais e na maior oferta de atividade cultural, isso não se traduziu, contudo, no maior acesso à cultura.
O diagnóstico é feito num estudo realizado por uma equipa do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas que foi divulgado esta quinta-feira, em Lisboa.
A equipa de sete elementos, coordenada pelos investigadores Pedro Borrego e Ana Lúcia Romão olhou em detalhe, ao longo de seis meses, para as realidades de quatro regiões do país: Terras de Trás-os-Montes, Algarve, Alentejo e Grande Lisboa.
Uma das principais conclusões apontadas é que persistem assimetrias no território nacional e, mesmo dentro de algumas regiões, há desigualdades sócio económicas que criam dificuldades no acesso à cultura.
O estudo desenvolvido analisou sobretudo, a situação dos museus e pretende com as suas conclusões contribuir para melhores políticas públicas no setor.
Acesso à cultura é um exemplo de cidadania
Na apresentação em que foi sublinhado que o acesso à cultura é um exemplo de cidadania, ficou claro que as assimetrias do país geram barreiras.
Se na região de Trás-os-Montes, mais de 80 por cento da população está a uma distância superior a 30 minutos de um museu, na zona da Grande Lisboa essa proximidade é maior, mas nem sempre a população conhece a atividade cultural do município vizinho.
Em entrevista à Renascença, o coordenador do estudo, Pedro Borrego explica que “há municípios mais periféricos, fora por exemplo de Lisboa, Cascais ou Sintra que têm oferta cultural consistente, mas têm dificuldade em atrair públicos”.
Outro dos problemas é também o público desconhecer o que acontece em outros municípios. “Até há a ideia de que esses municípios não terão oferta cultural interessante”, sublinha Borrego.
O coordenador aponta por isso, a importância da “questão da comunicação” que “equipamentos e iniciativas devem fazer com os públicos diferenciados”.
Mas se este é um dos exemplos dos desafios que existem em grandes centros urbanos, nas regiões mais do interior e isoladas colocam-se outras questões.
“Em regiões de maior isolamento geográfico é muito importante levar as iniciativas culturais para fora das infraestruturas e ir até onde as pessoas estão, nas instituições, nas escolas e em outros pontos geográficos que facilitem o acesso da população” à cultura, indica Pedro Borrego.
Olhando para o mapa de norte a sul, o estudo identifica os desafios que se levantam. No caso de Trás-os-Montes o principal desafio é o “envelhecimento da população, a fraca mobilidade e as limitações na divulgação”, indica o estudo que acrescenta “a baixa participação nas atividades culturais e a escassez de recursos humanos qualificados”
Já no Alentejo os desafios “prendem-se com a fragilidade ao nível dos recursos humanos e a capacitação institucional, verificando-se a necessidade de formação em línguas, comunicação, divulgação e competências digitais”.
No Algarve, o turismo é o principal desafio
Quanto à região do Algarve, o turismo é o principal desafio. Este “fator estruturante para programação” cultural exige a “procura de equilíbrio entre público locais, migrantes e turistas”.
Na região foi também identificada a “fragilidade na existência de recursos humanos qualificados” e apontada a “necessidade de formação em áreas-chave”.
Na Grande Lisboa, “existem barreiras territoriais e sociais que condicionam o acesso”, refere o estudo. Há uma “menor participação de grupos desfavorecidos” em atividades culturais e uma “desvalorização de territórios periféricos e dificuldade no acesso para escolas e populações sénior”.
Os desafios na principal zona urbana do país passam pela “criação de hábitos culturais desde a infância e pelo reforço do sentimento de pertença das comunidades, bem como uma posta em inovação digital, experiências e novas formas de comunicação”.
A fechar o estudo aponta algumas propostas a serem implementadas, uma delas é o alargamento das redes culturais, nomeadamente da rede de museus e estimular as redes locais. É também sugerida, em alguns casos, uma bilhética integrada para tornar o acesso mais facilitado do público aos equipamentos.
Outra das propostas é um reforço das redes de cooperação e articulação entre equipamentos, bem como uma maior aposta na estratégia de mediação cultural para quebrar as barreiras que persistem.
Fonte: www.rr.pt
Crédito da imagem: António Pedro Santos / Lusa