O “verdadeiro escritor” que dedicou toda a sua vida à literatura e que se tornou um “embaixador da língua portuguesa”.
É assim que personalidades e organizações dos mais altos cargos públicos e ligadas à literatura olham para a vida e obra de António Lobo Antunes, que morreu esta quinta-feira (4), aos 83 anos.
A informação foi confirmada à Renascença pela D. Quixote, com a editora a deixar uma mensagem nas redes sociais.
“Foi com profunda tristeza, e ainda a recuperar do choque, que recebemos a notícia, esta manhã, da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos seus leitores e admiradores”, indica a editora.
A mensagem foi também partilhada pelo grupo Leya, do qual a D. Quixote faz parte, referindo que a importância do escritor “ultrapassou fronteiras”.
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, destacou que Lobo Antunes “marcou um novo tom no romance português” com a sua obra de estreia, “Memória de Elefante”, com “sucesso crítico e editorial, e inédita repercussão no estrangeiro”.
“Escreveu toda a sua obra de romancista, mas também de cronista, num registo de ternura contundente, com a mágoa e o fracasso das vidas comuns postos lado a lado com as tragédias políticas, o excesso e a empatia”, aponta o chefe de Estado, considerando que “ninguém terá sido mais imitado pelas gerações seguintes”, que “poucos foram tão lidos, traduzidos, premiados e estudados”.
Referindo ser “leitor, admirador e amigos há décadas”, Marcelo lembra que em 2022 atribuiu-lhe as insígnias da Grã-Cruz da Ordem de Camões e que agora irá depositar o Grande-Colar da mesma Ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, expressou condolências à família e amigos em nome do Governo, prestando homenagem a uma “figura maior da cultura portuguesa”.
“O seu legado é uma crónica da humanidade e da originalidade do olhar português e por isso continuará a inquietar-nos e a inspirar-nos”, refere.
Também a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, deixou uma mensagem de condolências pela morte de Lobo Antunes, destacando o seu “legado brilhante e inesquecível”.
“É com profundo pesar que lamentamos a morte de António Lobo Antunes, escritor maior de Portugal, intérprete sensível e incomparável da condição humana, um dos nossos autores mais reconhecidos das últimas décadas”, refere.
O secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, lamentou a morte do escritor António Lobo Antunes como a perda de “homem com uma humanidade comovente” e sublinhou a importância de olhar para o futuro do seu legado à Lusa.
“É uma grande perda para Portugal, para a cultura, para a literatura em particular, porque o António Lobo Antunes foi uma das vozes das últimas décadas que mais se distinguiu no modo de contar histórias, no modo como olhou para nós próprios, para a nossa condição de portugueses e retratou momentos muito importantes do nosso passado e presente”, afirmou Alberto Santos, que era presidente da Câmara Municipal de Penafiel quando Lobo Antunes foi o homenageado, em 2012, do festival literário Escritaria.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros, tutelado por Paulo Rangel, salientou uma “lucidez distante”, considerando-o um “enorme embaixador da língua portuguesa”.
” Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo. Uma lucidez distante que não é desdém mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa”, aponta o gabinete do ministro.
Entre pares, Lobo Antunes também é reconhecido e Lídia Jorge, que venceu o Prémio Pessoa 2025, considera à Renascençaque o país “fez justiça” ao escritor, que queria ter sido reconhecido com o prémio Nobel da Literatura.
“Ele queria muito o prémio Nobel mas, sejamos francos, o prémio Nobel é um acaso. Acho que o país lhe fez justiça, sinceramente. O que é que um escritor quer mais do que reconhecimento, de leitores aos milhares, reedições sobre edições, prémios todos de Portugal, prémios internacionais por toda a parte”.
“Deixa uma obra aberta imensa à volta do mundo. O que é importante será que as escolas, as universidades e os leitores continuem a abordar a obra dele como uma escrita que não tem tempo”, afirma.
À Renascença, o jornalista e autor da obra biográfica “Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes”, João Céu e Silva, reconhece o escritor como “um dos nomes mais transformadores da literatura contemporânea em Portugal”.
“Será um dos maiores escritores, dos mais inteligentes, dos mais inovadores, porque criou uma nova literatura, uma nova forma de escrever, amplamente copiada. Todos os jovens escritores que estão a começar copiam a forma de escrever, foi inspirador para muitas gerações”, considerou.
Já Mário Cláudio, próximo de Lobo Antunes, reconhece-o como ” o mais notável escritor da sua geração”.
“Entrou como um tornado na literatura portuguesa, foi o melhor da minha geração, indiscutivelmente. Era um homem que vivia permanentemente com uma ferida aberta e estava sujeito à condição humana no seu máximo grau. O que nos dá é a consciência da possível grandeza que podemos ter e, ao mesmo tempo, de uma extraordinária fragilidade”, refere.
O jornalista e escritor Rodrigo Guedes de Carvalho considera que o escritor foi “muito importante” e um “farol”, referindo que inspirou a sua forma de escrever.
“Perda irreparável” e um escritor de “rara coragem intelectual”
O Presidente da República eleito, António José Seguro, também deixou uma mensagem de pesar, considerando que a obra de Lobo Antunes é “profundamente marcada pela lucidez” e “exigência moral” para com o país e a condição humana.
“Ao longo de décadas, os seus livros desafiaram leitores, abriram caminhos na literatura e deram à língua portuguesa uma expressão singular de intensidade e verdade. António Lobo Antunes foi um escritor de rara coragem intelectual, capaz de transformar a experiência individual e coletiva em literatura de grande fôlego. A sua escrita ficará como um testemunho poderoso do nosso tempo e como um património duradouro da cultura portuguesa”, escreveu Seguro.
“Deixa uma obra extensa, premiada em Portugal e no estrangeiro”, refere.
Já José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, refere que a morte do escritor “constitui uma perda irreparável para a Literatura e para a Cultura portuguesa e enche-nos a todos de tristeza”.
“Portugal perde uma das sua referências, num momento em que eles tanto são precisas. Ler a sua obra e ensiná-la às gerações futuras é um compromisso que, como sociedade, devemos assumir e constituirá a garantia da sua continuidade como um dos grandes autores de sempre da Literatura portuguesa”, escreve.
“Tivemos a sorte e o privilégio de ver o fruto da sua obsessão pela escrita. Tivemos a sorte e o privilégio de ver nele o maior interprete do Portugal do nosso tempo: do fim do império, da experiência da guerra, da psicologia tão complexa deste nosso velho país”, refere numa publicação no Facebook.
O autarca destaca que Lobo Antunes faz hoje parte da “rara aristocracia da literatura mundial” e que é um orgulho ser “a cidade e a pátria” do escritor.
Também o Benfica manifestou o seu “profundo pesar” e endereçou “sentidas condolências à família, amigos e admiradores”, lembrando que o escritor era “um dos mais ilustres adeptos do clube” e uma “referência maior da cultura portuguesa contemporânea”.
“António Lobo Antunes manteve ao longo de décadas uma ligação afetiva ao Benfica, que tantas vezes atravessou a sua própria obra e os seus testemunhos públicos. A sua voz singular na literatura portuguesa expressou sempre uma identidade profundamente enraizada no benfiquismo”, pode ler-se no site oficial do clube lisboeta.
O clube recorda uma frase célebre do escritor, que durante a Guerra Colonial afirmou que “enquanto o Benfica jogava, não havia guerra”. Ou uma associação ao futebol: “Quero ser o [Rui] Águas da literatura.”
O Benfica considera que Portugal “perde um escritor maior” e o clube vê partir “um adepto cuja genialidade, pensamento e paixão pelo Benfica ficarão para sempre na memória coletiva do benfiquismo”.
A Ordem dos Médicos também manifestou pesar pela morte do médico e escritor, reconhecendo-o como “um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea”.
“Formado em Medicina e especializado em Psiquiatria, exerceu no Hospital Miguel Bombarda antes de se dedicar plenamente à escrita. A sua obra, marcada pela experiência clínica, constitui um contributo ímpar de memória e identidade”, refere, sublinhando “a perda de uma personalidade que honrou a Medicina e a Cultura”.
O presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE) considerou que a morte de António Lobo Antunes é uma grande perda para a literatura portuguesa, destacando que deixa uma grande obra como legado.
“O António Lobo Antunes foi e será um dos nomes nucleares de toda a nossa história literária. É pois a perda de alguém que deixa uma obra absolutamente fundamental que irá sendo sempre reencontrada nos seus diversos géneros através de múltiplas gerações”, disse José Manuel Mendes à agência Lusa.
Para o presidente da APE, a morte de António Lobo Antunes é uma perda dolorosa e o momento é de luto para a literatura portuguesa.
Fonte: www.rr.pt
Crédito da imagem: Tiago Miranda