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Artur Jorge. O treinador campeão europeu pelo FC Porto que também foi poeta e colecionador de arte

O antigo selecionador nacional Artur Jorge, que foi campeão europeu pelo FC Porto em 1987, morreu na madrugada desta quinta-feira, vítima de doença prolongada, informou a família. Tinha 78 anos.

“É com profunda tristeza que a família de Artur Jorge Braga de Melo Teixeira comunica o seu falecimento, esta madrugada, em Lisboa, após doença prolongada. Morreu serenamente, rodeado dos seus familiares mais próximos”, refere o comunicado da família do antigo jogador e treinador de futebol. 

A Federação Portuguesa de Futebol (FPF), entretanto, decretou um minuto de silêncio em todos os jogos que organiza a partir de hoje em memória do antigo futebolista e treinador.   

Ao longo da vida vestiu muitos casacos, de treinador campeão europeu pelo FC Porto a poeta, colecionador de arte e fundador do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol.

Nasceu em 13 de fevereiro de 1946 na Lapa, no Porto, e começou a dar pontapés numa bola pelas ruas da cidade, estudando depois no Liceu D. Manuel II, em que começou a jogar basquetebol e voleibol, até bilhar, enquanto crescia a paixão pela literatura.

Na Carvalhosa, em que estudava, envolve-se em clubes académicos e é aí que chama a atenção de José Maria Pedroto, que depois o ‘leva’ para as camadas jovens do FC Porto, onde vai dando nas vistas.

À morte dos pais no fim da adolescência, em três anos, segue-se a ida para Coimbra, para poder ingressar na Universidade de Coimbra, e para a Académica, por quem faz golos como se fossem uma coisa banal.

É aí que se cruza com a resistência antifascista e na crise académica em 1969, é impedido de jogar a final da Taça de Portugal desse ano, contra o Benfica, e protestar como os outros atletas da ‘Briosa’, com braçadeira branca no braço, por não ter dispensa do serviço militar.

Tinha vivido na república Ninho dos Matulões e apurava-se o gosto por filosofia e literatura, tornando-se cada vez mais numa figura ímpar no desporto nacional, mais tarde conhecido como ‘Rei Artur’.

Sobre o 25 de abril de 1974, virá a dizer mais tarde, em entrevista à Visão “a meses de fazer 65 anos”, que todos esperavam “que as coisas iam evoluir de maneira diferente”, e mesmo com “diferenças enormíssimas” de um “país completamente atrasado”, sentia que as coisas estavam então “a piorar”, no alvor da intervenção da ‘troika’ no país.

O curso de Filologia Germânica, esse, viria a acabá-lo em 1975, já no Belenenses, mas seis anos antes vai para o Benfica continuar a marcar ‘carradas’ de golos.

Em 1972, funda o Sindicato de Jogadores, para lutar pelas condições laborais dos colegas de profissão, e contra a Lei de Opção, e chega a acumular o trabalho de futebolista com outro na Direção-Geral dos Desportos, antes de rumar a Leipzig, na Alemanha Oriental (RDA), para estudar Futebol e Metodologia do Treino.

No regresso, tornou-se treinador, trabalhando com Mário Wilson e Pedroto, e como principal, com o sucesso que se lhe conhece, culminando na Taça dos Campeões Europeus ganha pelo FC Porto em 1987.

Quatro anos antes, era treinador do Portimonense, as Edições O Jornal dão à estampa uma edição de “Vértice da água”, a estreia de Artur Jorge na poesia.

“Como se corpo enxuto/crescendo/paira este poema/só de ramos”, é a primeira estrofe de um dos poemas publicados.

Em outra das suas muitas facetas, o antigo selecionador português começou a comprar obras de arte ainda enquanto jogador e nunca mais parou, com uma coleção de arte privada que foi leiloando e exibindo, aos poucos, já no século XXI.

Em 2010, mostrava pela primeira vez 48 obras que leiloaria, depois, em Paris, e o Centro Cultural de Belém recebia trabalhos de Picasso, Basquiat, Dalí, Chagall, Kandinsky, Warhol, Pollock, Man Ray, Miró, Magritte e Picabia, um ‘onze’ tão luxuoso quanto o que Futre encabeçou na final de Viena em 1987.

O campeão nacional por FC Porto e, em França, pelo Paris Saint-Germain, ainda longe da ‘era dos milhões’ que hoje vive, dizia então guardar um quadro de Maria Helena Vieira da Silva, uma das portuguesas que figuravam na sua coleção, como Júlio Pomar.

Uma escultura de Yves Klein que foi a leilão avaliada entre 250 mil e 350 mil euros, uma peça em madeira de Sol Lewitt e obras de Joseph Beuys, Serge Poliakoff e Karel Appel estavam também nesse lote.

Repetiu a dose em 2018 na Sociedade Nacional de Belas Artes, com mais de uma centena de trabalhos de autores sobretudo nacionais, quando já estava “completamente reformado do futebol e da vida pública”, como disse então a mulher, Lena Teixeira, dedicado que estava aos netos, à leitura, mas também a pintar e desenhar.

Expor é que não, ficavam para os netos, explicou a esposa, mas aos 72 anos seguia encantado com novas formas de dar azo à criatividade e a seguir novas paixões, um espelho da vida que nasceu na Lapa e que passou por andebol, voleibol, basquetebol, bilhar e futebol, por poesia, pintura, literatura e filosofia.

Viria a dizer, mais tarde, continuar a ler, ir ao teatro e ao cinema, mas ter deixado de escrever, ainda que o gosto pela arte e cultura tenha permanecido sempre, nem que fosse a acompanhar o futebol de sempre, que gostava de fazer pela televisão, mas acompanhado de música clássica.

Uma avidez de mundo que experienciou também num ror de países, treinando em França, Suíça, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Rússia, Camarões, Espanha, Países Baixos e até Arábia Saudita.

“Se ao menos uma vez o poeta ordenasse/que as aves se despissem/que as aves não gritassem/que as aves a tão alto chegar não chegassem/ou que por tão alto chegarem/outra ordem as parasse/ou um raio ou uma pedra/ou o sino de uma igreja/ou talvez uma palavra/o que calhando bastasse”, é outro dos poemas de “Vértice da água”.

Fonte: Diário de Notícias / Portugal

Crédito da imagem: Bruno Peres / Arquivo Global Imagens