O acordo que poderá reabrir o Estreito de Ormuz nos próximos dias foi recebido com cautela por armadores e comerciantes, tendo muitos afirmado que irão aguardar mais detalhes para avaliar se é possível garantir a segurança das travessias marítimas.
A via navegável – um canal vital para o escoamento de petróleo e gás natural a nível global – tem estado no centro da guerra lançada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão no passado dia 28 de fevereiro, e a necessidade urgente de retomar o tráfego tem sido um tema crucial nas discussões de paz.
O controlo do Irão sobre o estreito, combinado com um bloqueio dos EUA, criou uma perturbação sem precedentes no comércio global de energia, praticamente isolando alguns dos maiores produtores mundiais e forçando mesmo os principais intervenientes a recorrer a trânsitos “ocultos”.
Ainda assim, a solução temporária anunciada pelos Estados Unidos e pelo Irão – incluindo uma declaração do Presidente norte-americano, Donald Trump, de que o estreito reabrirá na próxima sexta-feira (19), quando o acordo for assinado – deixou o setor a questionar-se sobre o que isso significará na prática.
Com informações limitadas até ao momento, houve pouca atividade no Estreito de Ormuz nas primeiras horas desta segunda-feira (15) e, à medida que a notícia se espalhava, com exceção de um navio-tanque de gás natural liquefeito, o Disha, que testou a segurança nas águas, dirigindo-se para Ormuz.
Quase 600 navios continuam retidos no Golfo Pérsico, prontos para sair, enquanto centenas também aguardam vazios no lado exterior do golfo, de acordo com a Kpler, citada pela agência Bloomberg.
Embora, em teoria, o acordo deva libertar milhões de barris de petróleo, continuarão a existir obstáculos práticos, incluindo problemas como a concorrência entre tantas embarcações para transitar efetivamente por um corredor estreito.
O número exato de navios observados poderá variar à medida que forem sendo adicionados à contagem mais embarcações até agora paradas, que desligaram os seus ‘transponders’ – dispositivo eletrónico transmissor e respondedor.
A segurança também continua a ser uma questão em aberto, uma vez que supostos acordos nos últimos meses terminaram com as forças iranianas a disparar contra navios ou a apreender embarcações.
Finalmente, subsiste a incerteza quanto às minas no estreito, tornando as rotas e a cobertura de seguro cruciais.
Brett Erickson, diretor-geral da Obsidian Risk Advisors, sublinhou que a segurança é a principal preocupação de todos os armadores que tentam compreender a situação no terreno.
“A indústria marítima compreende isso. Os capitães compreendem isso. As tripulações compreendem isso”, afirmou, citado pela Bloomberg:
“Sabem que um único erro de cálculo, um único ataque ou uma única decisão política pode introduzir novos atritos na situação e colocar mais uma vez as suas vidas em risco”, acrescentou.
Alguns produtores de petróleo têm vindo a encontrar gradualmente soluções alternativas para fazer passar os petroleiros, por vezes com o apoio dos Estados Unidos, mas as travessias têm-se mantido numa fração dos níveis pré-guerra, quando uma média de 135 petroleiros atravessava o Estreito de Ormuz diariamente.
Os navios carregados serão provavelmente os primeiros a preparar-se para partir, enquanto os navios vazios que já se encontram no Golfo poderão começar a carregar mercadorias nos próximos dias.
Existem atualmente mais de 300 navios vazios à espera no Golfo de Omã, muitos dos quais poderão transitar pelo estreito de Ormuz para entrar no Golfo Pérsico assim que o acesso for restabelecido.
Os petroleiros constituem a maior parte dos navios atualmente retidos no Golfo Pérsico, revelam os dados da empresa de inteligência de dados Kpler, um reflexo das cargas de petróleo de elevado valor que transportam e que se tornaram um foco de atenção durante a guerra.
Cerca de 98 petroleiros de crude continuam retidos no interior, enquanto os navios que transportam produtos petrolíferos sujos somam 88.
Os armadores mais tolerantes ao risco serão os primeiros a agir, afirmou Muyu Xu, analista sénior de petróleo bruto da Kpler, também citado pela Bloomberg.
“Podemos ver navios a sair apressadamente assim que o Irão abrir as portas”, sugeriu Xu. “Embora reste saber se Teerão irá impor quaisquer medidas de controlo”, acrescentou.
Fonte e crédito da imagem: O Jornal Económico / Portugal