Era muito mais do que um jogo de futebol. Para o Benfica, o jogo desta quarta-feira no Estádio da Luz era um verdadeiro três em um: 1) o apuramento para a Liga dos Campeões, 2) o encaixe financeiro do apuramento para a Liga dos Campeões e 3) um trunfo eleitoral para Rui Costa ou uma arma de arremesso para todos os outros candidatos às eleições do próximo mês de outubro.
Tudo isso era jogado num único jogo de futebol.
Uma semana depois do nulo em Istambul e com uma confortável vitória contra o Tondela pelo meio, o Benfica disputava o futuro nas competições europeias em casa e contra o Fenerbahçe de José Mourinho.
O experiente treinador português lançou os mind games do costume, entre a atribuição de favoritismo aos encarnados, os lamentos sobre o próprio plantel e até elogios ao árbitro, mas Bruno Lage tinha a receita para a segunda mão do playoff de Liga dos Campeões: cabeça fria.
“O mais importante é a vontade enorme que temos de jogar a Liga dos Campeões. Sabemos da importância financeira e estratégica para o clube. Temos de vencer o jogo. Do outro lado temos uma equipa de Liga dos Campeões, repleta de jogadores de enorme qualidade, com um treinador que conhece muito bem a competição e que já a ganhou duas vezes.
O mister Mourinho conhece muito bem o Benfica e o Estádio da Luz. O mote tem de ser que todos sejamos mais racionais do que emocionais. E com isto antecipo um jogo tático. Temos de ter paciência e inteligência”, explicou o treinador encarnado na antevisão da partida.
Neste contexto e sem Florentino, que foi expulso em Istambul e estava castigado, Bruno Lage mantinha a estratégia da primeira mão e voltava a deixar Ivanovic no banco, apostando em Leandro Barreiro no meio-campo.
Do outro lado, num Fenerbahçe que também ganhou no fim de semana, José Mourinho fazia apenas duas alterações face ao onze inicial de há uma semana e trocava Jhon Durán por Talisca, para além de também mexer na baliza e proporcionar a titularidade do experiente Dominik Livakovic.
O jogo arrancou com uma oportunidade clamorosa para o Benfica: Pavlidis apareceu em velocidade na esquerda da grande área e cruzou, mas Leandro Barreiro permitiu uma defesa enorme a Livakovic (3′).
O mote estava dado e não foi preciso esperar muito mais para perceber que os encarnados queriam resolver o playoff e não alimentar ansiedades ou indecisões, já que o Fenerbahçe não conseguia sair a jogar e quase só se limitava a defender as investidas do adversário.
Pavlidis ameaçou com um remate à malha lateral (10′) e, logo depois, conseguiu mesmo marcar ao desviar um cabeceamento de António Silva na sequência de um canto (11′) — Leandro Barreiro, porém, estava fora de jogo, o que levou o árbitro a anular o golo após analisar as imagens do VAR.
Do lance saiu a lesão de Nélson Semedo, que não conseguiu permanecer em campo e levou José Mourinho a fazer a primeira substituição para lançar Söyüncü.
O Benfica continuou a dominar depois do golo anulado, com Richard Ríos a rematar ao lado de fora de área (28′) e os encarnados a encontrarem constantemente um filão dourado no espaço entre Archie Brown e Oosterwolde.
Leandro Barreiro também marcou, de cabeça e depois de um livre na esquerda, mas o golo foi novamente anulado por falta ofensiva do médio luxemburguês (23′).
Já depois da meia-hora, contudo, valeu mesmo: num lance de insistência, Barreiro soltou em Aktürkoğlu na esquerda da área e o avançado turco atirou de primeira para abrir o marcador (35′), mostrando-se muito contido nos festejos.
Pouco se jogou na primeira parte a partir daí, entre muitas paragens e o ambiente efusivo das bancadas da Luz que se estendia aos dois bancos de suplentes, sendo que Leandro Barreiro ainda poderia ter aumentado a vantagem já nos descontos com um desvio ao lado após cruzamento de Samuel Dahl (45+1′).
Ao intervalo, apesar de uma parca reação do Fenerbahçe na ponta final do primeiro tempo, o Benfica estava a ganhar e colocava-se a 45 minutos da Liga dos Campeões.
José Mourinho mexeu logo ao intervalo e tirou Amrabat, que já tinha cartão amarelo, para colocar Ismail Yüksek. O jogo regressou dos balneários mais dividido e com o Benfica a apostar menos na transição rápida, optando por colocar as linhas mais fixas na zona do meio-campo e acautelar a reação do Fenerbahçe. Os turcos, contudo, não demonstravam grande capacidade para se aproximarem da baliza de Trubin.
Os encarnados mantinham-se a equipa mais perigosa, com António Silva a ficar muito perto de aumentar a vantagem com um cabeceamento na área que Livakovic defendeu (61′), e José Mourinho mexeu na equipa e na estrutura ao lançar Oguz Aydin e Jhon Durán para manter Talisca e En-Nesyri.
O avançado marroquino ficou muito perto de empatar com um cabeceamento em direção à trave (72′), naquela que foi a primeira oportunidade do Fenerbahçe no jogo, e Bruno Lage reagiu com as entradas de Ivanovic e Schjelderup.
O Benfica conseguiu congelar os minutos de maior entusiasmo dos turcos e tudo ficou ainda mais simples já na ponta final, com Talisca a ver dois cartões amarelos e o consequente vermelho no espaço de três minutos e a ser expulso, deixando a equipa de José Mourinho em inferioridade numérica.
Já nada mudou até ao fim, com os turcos a caírem por completo depois da expulsão e os encarnados a demonstrarem frieza para segurar o resultado e a eliminatória.
O Benfica venceu o Fenerbahçe na Luz pela margem mínima e garantiu a presença na fase de liga da Liga dos Campeões, cumprindo as três prerrogativas iniciais: a desportiva, a financeira e a eleitoral, do ponto de vista de Rui Costa.
Bruno Lage tinha pedido que a equipa fosse mais racional do que emocional e teve direito a uma primeira parte com emoção e a segunda carregada de emoção — e um toque de ironia com participação especial de Aktürkoğlu.
Fonte: www.observador.pt
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