Lula da Silva quer Portugal a servir de ‘hub’ aos interesses brasileiros na Europa

O presidente brasileiro, Inácio Lula da Silva, disse em Lisboa, onde esteve esta terça-feira (21), que é muito importante que parte daquilo que o Brasil vai negociar com a União Europeia no âmbito do acordo Mercosul seja construída em Portugal.

Firme apoiante do acordo do lado de lá do Atlântico, Lula da Silva falava na residência oficial do primeiro-ministro português, após um encontro de cerca de uma hora que manteve com Luís Montenegro.

O chefe de Estado brasileiro, que chegou ao Palácio de São Bento com hora e meia de atraso, enalteceu as relações entre Portugal e o Brasil que, na sua opinião, atravessam o “melhor momento”. “Agora que Portugal ajudou o Brasil a fazer o acordo União Europeia – Mercosul, agora sim, conseguimos dizer alto e bom som que Portugal pode ser a grande porta da entrada dos interesses empresariais brasileiros aqui em Portugal”, disse, citado pela Lusa.

A circunstância de Portugal se destacar como uma espécie de ‘hub’ dos interesses brasileiros – que podem ainda ‘puxar’ outros países da América do Sul também signatários do acordo – pode ser fundamental para os interesses nacionais, uma vez esteja o acordo a funcionar em pleno, o que ainda não acontece.

Lula da Silva revelou que disse ao primeiro-ministro português que iria conversar com os ministros brasileiros para que estes conversem com as indústrias, pois “é muito importante que parte do que o Brasil vai negociar com a União Europeia seja construída” em Portugal.

“Aí sim, estaremos a fazer uma parceria séria, que seja um jogo de ganha-ganha”, referiu, acrescentando: “Não queremos que Portugal seja apenas a porta de entrada; queremos que Portugal seja a porta da construção de uma parceria robusta entre dois países que se conhecem desde abril de 1500”.

Os empresários brasileiros, ou parte deles pelo menos, estão alinhados com a estratégia da presidência. Isso mesmo disse ao JE o presidente Luis Cédio Caetano, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), em conversa recente.

Do seu lado, Luís Montenegro, afirmou que Portugal defende o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, assinado em 17 de janeiro, depois de mais de 25 anos de negociações, que visa eliminar ou reduzir drasticamente as tarifas alfandegárias entre os dois blocos.

Mas, convém recordar, o acordo continua a carecer de passar pelo crivo do Parlamento Europeu – e, como se sabe, vários países são contra (como a França) e outros não têm uma decisão fechada sobre os seus benefícios (como por exemplo a Itália).

Concórdia em Belém

O encontro de Lula da Silva com o novo Presidente da República, António José Seguro, decorreu também sob o signo da concórdia, como outra coisa não seria de esperar.

@António Pedro Santos / Lusa

O encontro durou cerca de duas horas e foi seguido de um almoço oficial com membros dos dois governos – entre eles o próprio Luís Montenegro.

As relações entre Brasil e Portugal, a cooperação económica e tecnológica e a imigração e questões sociais, foram os grandes temas abordados – onde houve essencialmente comunhão de pontos de vista. Lula da Silva acabaria por considerar a visita como “muito boa, maravilhosa”, embora não tenha dado muitos detalhes sobre o encontro com Seguro, naquela que foi a primeira reunião conjunta de ambos.

Neste seu terceiro mandato como presidente do Brasil, iniciado em janeiro de 2023, Lula da Silva, recordou a RTP, esteve em Portugal, em abril desse ano, para uma visita de Estado, a convite de Marcelo Rebelo de Sousa, para a 13.ª Cimeira Luso-Brasileira e a entrega do Prémio Camões a Chico Buarque, quando ainda estava em funções o anterior Governo do PS chefiado por António Costa.

Em fevereiro do ano passado, Marcelo Rebelo de Sousa, que tinha estado na posse do presidente brasileiro, fez uma visita oficial ao Brasil, com passagens por Recife e Brasília, seguida da 14.ª Cimeira Luso-Brasileira entre governos, já Luís Montenegro como primeiro-ministro.

Discórdia nas ruas

Como vem sendo hábito, enquanto Lula da Silva passou pelas ruas de Lisboa, diversas manifestações – umas a favor outras contra – foram tendo lugar. Mais uma vez, e do lado contra, o ex-candidato à Presidência da República, André Ventura, protagonizou a mais aguerrida. Aquele que, se tivesse vencido Seguro, teria que estar em Belém a receber Lula da Silva, afirmou que já há muitos corruptos: “Não queremos mais”, para enfatizar que o presidente brasileiro é mais um deles.

Ventura sincronizou a sua intervenção com a chegada do presidente brasileiro a Belém, refere a reportagem do DN. Quando Lula entrou na residência oficial de António José Seguro ouvia-se o Chega a gritar “Lula, ladrão, o teu lugar é na prisão”.

“Se a polícia fizesse ali uma rusga, a maior parte eram presos”, disse Ventura sobre os apoiantes do PT, o partido de Lula da Silva, que estavam do outro lado da rua a organizar uma manifestação ‘a favor’.

Fonte: O Jornal Económico / Portugal

Crédito da imagem: Ricardo Stuckert / Presidência da República do Brasil