A economia portuguesa deverá crescer menos do que o previsto, cerca de 1,8% em termos reais este ano (previsão anterior, de dezembro, era 2,3%), já assumindo o impacto preliminar da guerra no Médio Oriente, indica o Banco de Portugal (BdP) no novo boletim económico trimestral divulgado esta quarta-feira (25), na sede do Banco, em Lisboa.
A inflação dispara este ano de cerca de 2% para quase 3%, as taxas de juro Euribor de curto prazo, a três meses (assumindo as hipóteses do mercado até ao passado dia 13 de março), sobem, em média, de 2,2% em 2025 para 2,7% em 2028; a dívida pública também tenderá a ficar mais cara, como já se perfilava em dezembro, com o custo médio implícito dos juros a subir de 2,2% em 2025 para 2,6% em 2028.
No novo cenário macroeconómico, os efeitos da guerra, das tempestades e da alta incerteza vão penalizar o crescimento do consumo das famílias, do investimento, das exportações e até do emprego, que vai crescer menos do que se previa no boletim trimestral de dezembro.
“A economia portuguesa deverá crescer 1,8% em 2026, 1,6% em 2027 e 1,8% em 2028”, começou por resumir o governador Álvaro Santos Pereira, na apresentação do novo estudo.

Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira
Crédito da imagem: Reinaldo Rodrigues
O boletim diz que o Banco de Portugal revê em baixa o crescimento deste ano em 0,5 pontos percentuais, algo que reflete “a deterioração do contexto internacional, na sequência do conflito no Médio Oriente, que implicou o aumento do preço dos bens energéticos e a expectativa de agravamento das condições de financiamento”.
Mas não só. “Os eventos climáticos extremos do início do ano e a evolução mais fraca da atividade no final de 2025 face ao projetado em dezembro também contribuíram para a revisão em baixa”.
O governador explicou que as tempestades severas tiveram um impacto “enorme” na economia, condicionando o consumo e destruindo capital (investimentos vários, máquinas, instalações industriais, estradas). Espera-se que no resto do ano haja uma recuperação desta destruição, disse Santos Pereira.
Tudo mais caro, crédito também
Tudo ficará mais caro também: “A inflação deverá aumentar para 2,8% em 2026, refletindo o aumento das pressões de origem externa”.
“O conflito no Médio Oriente explica, em larga medida, as revisões em alta da inflação em 2026 e 2027”, muito embora se espere uma “dissipação do efeito do choque energético nos preços e a manutenção das expectativas de inflação de longo prazo ancoradas deverão contribuir para a redução da inflação para 2% em 2028”.
Com mais inflação (a caminho de 3% este ano quando o nível ideal seria 2%) é de esperar, claro, um agravamento das taxas de juro, como já sinalizou o Banco Central Europeu (BCE), na leitura da maioria dos analistas.
Para o BdP, “a subida abrupta e significativa dos preços das matérias-primas energéticas” prejudica o ritmo da atividade e contribui para mais inflação, “sobretudo em 2026” pelo que “a expectativa de agravamento das condições de financiamento condiciona também a atividade no horizonte de projeção”.
Tal como o BCE, o Banco de Portugal assume neste estudo que a guerra no Médio Oriente é de relativa curta duração, mas não há certezas sobre isto. É apenas uma hipótese de trabalho, a menos má, por assim dizer.
“A incerteza é elevada e os riscos intensificaram-se desde dezembro. As hipóteses do exercício de projeção têm por base as expectativas implícitas nos mercados financeiros até 13 de março, pressupondo uma duração relativamente limitada do conflito no Médio Oriente e efeitos contidos na confiança das famílias e empresas e nas cadeias de abastecimento globais”.
No entanto, “a intensificação ou prolongamento das hostilidades teria um impacto mais significativo nos preços e na atividade. Internamente, o principal risco está relacionado com a capacidade de execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)”, diz o Banco.
“Em sentido contrário, a economia portuguesa poderá ser estimulada pelo recém-anunciado PTRR (Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência) e pelo reforço do investimento europeu em defesa e infraestruturas”, contrapõe a autoridade monetária no estudo.
Em 2026, o quadro adverso apresentado “é mitigado pela solidez do mercado de trabalho, a execução do PRR e uma política orçamental expansionista”, mas “em 2027 e 2028, a atividade será condicionada pelo abrandamento da oferta de trabalho e pela diminuição dos fundos europeus”.
