Transição verde e reindustrialização: o dilema económico da Europa

Durante décadas, a Europa conseguiu melhorar significativamente a qualidade ambiental dos seus territórios.

Convém não esquecer, no entanto, que parte desse progresso resultou também da deslocação de setores industriais intensivos para outras regiões do mundo.

As cadeias de valor globais permitiram esta transformação. Continuámos a consumir bens industriais, mas muitos dos impactos da produção passaram a ocorrer fora das fronteiras europeias.

Hoje, o contexto económico e geopolítico mudou. A pandemia, a guerra na Ucrânia e as tensões económicas globais trouxeram para o centro da agenda europeia temas como autonomia estratégica, segurança energética e resiliência das cadeias de abastecimento.

Neste contexto, a ideia de uma nova fase de reindustrialização europeia ganhou força. Produzir mais na Europa passou a ser visto não apenas como uma questão económica, mas também de segurança e estabilidade.

Importa reconhecer, porém, que esta ambição levanta uma tensão. O exemplo das baterias para veículos elétricos é ilustrativo.

A União Europeia promove uma cadeia de valor europeia neste setor, um investimento industrial de grande escala essencial para a transição energética.

Mas implica também novas infraestruturas industriais, maior procura energética e acesso a matérias-primas críticas.

A mesma tensão surge na agenda europeia de recursos minerais. A transição energética exige mais lítio, cobre, níquel ou terras raras para produzir baterias, turbinas e redes elétricas.

A nova legislação europeia procura reforçar a produção e processamento destes materiais na União. No entanto, abrir minas ou instalar novas unidades industriais em território europeu levanta questões ambientais, territoriais e de aceitação social.

A transição energética, muitas vezes apresentada como um processo tecnológico, é também um processo profundamente material.

A disponibilidade de recursos naturais, o acesso a energia competitiva e a organização das cadeias de valor tornam-se, por isso, fatores centrais para a competitividade industrial europeia.

Ao mesmo tempo, políticas ambientais exigentes continuam essenciais para garantir que a reindustrialização não compromete os objetivos climáticos do continente.

O verdadeiro desafio para a Europa é conciliar a transição energética com a revitalização industrial num contexto internacional marcado por crescente incerteza.

Reconhecer e gerir os inevitáveis trade-offs entre competitividade, sustentabilidade e segurança económica será decisivo para o sucesso dessa estratégia.

Artigo escrito por Ana Rodrigues

Diretora-executiva do Centro de Conhecimento de Economia do Ambiente da Nova Nova School of Business and Economics

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